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Sep

A inegável face indígena do povo pelotense – Antes a chamada civilização ser instalada, índios guaranis já habitavam Pelotas

Por: Francisco Lima

Pelotas

Embaixo de nossos pés existem diversas provas de que a história brasileira não se resume à chegada das civilizações européias. Colonizações alemã, italiana, espanhola e, principalmente, portuguesa marcaram nossa arquitetura e nossos modos e costumes dando início a um desenvolvimento muito forte em termos de civilização (do modo eurocêntrico do conceito).

Para se imporem, suprimiram outras diversas manifestações presentes na região, como é o caso dos povos indígenas guarani que, ao contrário do que comumente se pensa, habitavam as terras onde hoje situa-se Pelotas antes de qualquer homem branco pôr seus pés em solo brasileiro e, mais especificamente, gaúcho.

Pelotas, segundo afirma o mestrando em Arqueologia pela Universidade de São Paulo (USP), Aluísio Alves, tem origens policulturais. Colonizadores, negros escravos e indígenas formam a miscigenação étnica do povo local. Mas, os registros históricos não apontam de maneira clara como os índios guaranis, especificamente, foram incorporados à população atual. “A arqueologia serve para isso”, disse o arqueólogo.

O objetivo principal do trabalho de escavação realizado atualmente no Totó, próximo à Colônia Z-3, com financiamento do Fundo Municipal do Meio Ambiente, é observar como funcionava a habitação desses povos e levantar mais detalhes a respeito de sua distribuição espacial. Responsável pela pesquisa, Alves ressalta que o termo guarani engloba genericamente inúmeras parcialidades étnicas. Essa diversidade também será avaliada com o trabalho realizado na região desde o dia 31 de abril deste ano – e que pretende se estender por pelo menos ainda mais um mês.

Sítio

O sítio arqueológico do Totó foi originalmente descoberto na década de 60 pelo Programa Nacional de Pesquisa Arqueólogica (Pronapa). Em 2002, foi resgatado pelo Projeto de Mapeamento Arqueológico de Pelotas e Região (PMAPR) desenvolvido pelo Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas (Leparq/UFPel), sob coordenação do professor Fábio Cerqueira. O espaço onde são feitas as escavações atuais está localizado sob mata de restinga, às margens da Lagoa dos Patos.

Em 2007, data dos primeiros trabalhos de pesquisa realizados no local, fora identificada e escavada uma urna funerária. O material coletado foi datado em carbono 14 e identificou o período de ocupação no intervalo entre os anos de 1390 e 1440 depois de Cristo (d. C.), cerca de 600 anos antes de nossa época. No entanto, Alves afirma que a região pode ter sido ocupada em diferentes momentos.

Cada camada de terra, escavada representa uma época, porque as ocupações posteriores vão se sobrepondo às primeiras. Teoricamente, quanto mais interno, mais antigo é o material coletado.

Os pontos de terra preta encontrados delimitam as áreas com vestígios históricos porque é onde houve acúmulo de matéria orgânica – seja de restos de comida em decomposição ou das próprias residências que desmoronavam ao longo dos anos devido ao abandono.

Descobertas

Esses pontos de terra negra foram responsáveis pela identificação de diversos outros locais com vestígios das culturas indígenas. Quando no aterro da estrada que corta o Totó, o uso das máquinas desenterrou o passado através de pequenos fragmentos de cerâmica e apontou a realidade: o sítio arqueológico é maior do que se pensava.

Alves comenta que nem todos os pontos necessariamente são da mesma época, embora acredite numa ocupação litorânea prolongada e densamente povoada, por um vasto período. E, ao que tudo indica, os principais focos desse povo encontram-se bem preservados justamente abaixo dessa estrada que liga a Colônia Z-3 à cidade. “É a parte mais interessante para trabalharmos”, afirmou o mestrando.

A partir dos fragmentos coletados até o momento – estima-se mais de mil – pôde-se afirmar que esses povos eram horticultores, ou seja, já plantavam parte do que consumiam. A pesca é outra realidade identificada pelos fragmentos de ossos de peixes encontrados no sítio, como corvinas, bagres e miraguaias – esta presente hoje apenas no estuário de Rio Grande.

Pedaços de utensílios diários também demonstram a integração entre os povos da época. Como não conheciam o metal, grande parte das ferramentas era confeccionada em cerâmica ou material lítico (rochas e minerais). Certas matérias-primas encontradas na escavação – como a calcedônia – no entanto, não são originais desta região. Fato que comprova a realização de trocas em locais distantes até 200 quilômetros de aldeia.

Trabalho de mais de 15 pessoas

O levantamento feito até o momento é resultado de um trabalho conjunto entre 18 profissionais. De acordo com Alves a cultura da arqueologia brasileira não costuma trabalhar de forma multidisciplinar com outras áreas do conhecimento. Por esse motivo, a escavação realizada na região é pioneira em nível nacional. São profissionais da área da Arqueologia em constante troca com especialistas da conservação, da biologia, da restauração, da antropologia e da museologia.

O espaço também serve como laboratório para os estudantes. Já participaram alunos dos cursos de Museologia, História, Geografia, Conservação e Restauro e do Instituto de Ciências Humanas da UFPel, de Arqueologia da Universidade Federal de Rio Grande (Furg) e do Programa de Arqueologia Subacuática (PAS) da Universidade de La República de Uruguay. Fato que contribui para a pluralidade de interpretações a respeito dos achados. “Arqueologia não tem como dar conta de todas as áreas necessárias. Alguns conflitos surgem, mas temos que debater. Esse é o grande desafio”, comenta Alves.

Segundo o professor do curso de Conservação e Restauro, Jaime Mujica, a proposta do trabalho também é desenvolver uma metodologia minuciosa para ser utilizada nas próximas escavações. Sua função é conservar os materiais que, logo após retirados do solo, sofrem rápida deterioração pelas diferentes  condições de temperatura e pressão.

Na coleta são utilizados diversos produtos químicos que impedem o objeto de se desintegrar. Esse processo de conservação chama-se in situ (no local). Os registros são feitos em uma ficha, que especifica detalhes a respeito de cada fragmento. Isso é relevante porque quando os cacos de cerâmica, por exemplo, forem identificados como de um mesmo objeto, então é feita uma colagem. “Mas é importante também termos produtos químicos reversíveis caso os arqueólogos precisem desmontar para análise”, disse Mujica.

Os museólogos, por sua vez, têm a responsabilidade de gerenciar essas informações e viabilizar de que forma o conhecimento chegará às pessoas. É a chamada “patrimonialização”, ou seja, a montagem do acervo. Os sítios arqueológicos, assim como o petróleo, fazem parte da União e, portanto, são bens públicos. “Deve-se ter um retorno social”, disse Aluísio. O museu arqueológico pelotense será montado futuramente na parte detrás do Casarão oito.

Tecnologia em nome da pesquisa

A montagem também pode ser feita através do computador. O fragmento de borda de apenas um recipiente já é suficiente para a total reconstrução gráfica do objeto. E, a partir do tamanho, é possível então definir a finalidade desse objeto. Todo esse levantamento ajuda o arqueólogo a interpretar o tamanho da aldeia e o tempo de ocupação. “Quando menores os potes coletivos, menores os grupos. Acampamentos teriam apenas potes utilitários porque ficaria inviável carregar grandes objetos”, afirma.

Mas a pesquisa ainda é complexa. Para se apontar os fatos com propriedade é necessário registrar um grande número de informações. Existem diferentes variáveis que podem confundir o trabalho. A datação das peças só pode ser realizada nos Estados Unidos e, portanto, é bastante cara. Por isso, só é solicitada quando há fortes indícios de que se trata realmente de material pré-histórico.

A identificação do período de ocupação nessa escavação será feita apenas ao final da pesquisa. Haverá coleta de material do início e do fim das camadas escavadas a fim de analisar se houve diferentes períodos de habitação. A interpretação de uma longa permanência no local é concluída pela própria existência dos materiais. “Se fosse um grupo em movimento, ficariam poucos registros. Para ter algo é porque devem ter ficado aqui por bastante tempo”, completou Aluísio.

Espaço

Desde 2002, quando o projeto de mapeamento iniciou, já foram identificados mais de 40 sítios pré-históricos em Pelotas. “Se sairmos a campo continuamente, subirá para uma centena certamente”, opinou Alves. Outra hipótese que ainda será avaliada é a possibilidade de os três sítios identificados na região do Totó serem parte de uma única aldeia. “As vezes surgem mais dúvidas do que respostas. É um trabalho para uma vida inteira”, finalizou.

História

De acordo com o professor Fábio Cerqueira o que aconteceu com os índios que habitavam a região é um desafio para a pesquisa. Os registros tendem a suprimir esse aspecto da história, mas indícios apontam que os indígenas coabitavam com a civilização pelotense até pouco tempo atrás. “O contato de Pelotas com o índio é uma página que precisa ser reescrita na história”, disse.

Lagoa dos Patos e Serra dos Tapes identificam nomes de povos indígenas da região que, consequentemente, serviram de inspiração ao batismo dessas localidades. Esses grupos, de acordo com o professor, são os mesmos guaranis, mas por uma denominação etnográfica. As características principais que identificam esses povos são a riqueza da cerâmica. Os charruas e minuanos, ao que tudo indica, também viviam próximos, nos 18 pontos até então encontros no Pontal da Barra, no Laranjal.

Fonte: Jornal: Diário Popular- Pelotas – Domingo, 20 de junho de 2010

  1. on July 29th at 06:50 pm
    Mariluce dos Santos Kurz Vieira said:

    Olá Prezado Francisco
    Após pesquisa nas páginas da internet me deparei com teu artigo e talvez possas me ajudar a encontrar os aspectos que pesquiso, na verdade preciso saber onde atualmente encontramos comunidades indígenas no entorno da cidade de Pelotas. Caso possas contribuir com minha busca, te agradeço. Aguardo teu retorno.
    Att
    Mariluce Kurz