Categoria ‘Agricultura familiar’ Antropologia

3
Aug

Comercialização de alimentos orgânicos na feira ecológica “Ao Entardecer” em Pelotas.

Segundo Júlia Guivant (2003) vivemos numa sociedade individualista e globalizada e a procura por alimentos orgânicos vem crescendo, é uma escolha preocupada na busca de um estilo de vida mais saudável e tem pouco a ver com preocupações ambientais.

A autora conceitua dois tipos de consumidores ecológicos: o “ego-trip” e o “ecológico-trip”, no estilo ego-trip encontram-se os consumidores mais individualistas que buscam produtos naturais só pensando na sua própria saúde, beleza física, forma estética… Para Guillon e Willequet (GUIVANT, 2003, pág 77), neste estilo “O consumo de produtos orgânicos pode ser ocasional, e apenas uma entre outras práticas consideradas saudáveis”.

Já  o estilo ecológico-trip também pode ser considerado um tipo de consumidor ego-trip, porém, as suas decisões de consumo vão além do pensar só em si, “Seria o estilo de vida assumida frente ao meio ambiente ou de responsabilidade social” (GUIVANT, 2003, p. 64).

Na observação participante que fiz na “Feira Ecológica ao Entardecer”, no Largo do Mercado Público em Pelotas-RS, uma consumidora, Sra. Paulina explicou que compra alimentos orgânicos há 15 anos, desde que as feiras começaram aqui no município,  diz que faz esta escolha principalmente pensando na sua saúde, pelo sabor, aparência dos alimentos e por não terem agrotóxicos. Ela ressalta que “Tem pessoas que reclamam que é mais caro, mas não veem o custo x benefício, e também o trabalho das famílias produtoras”.

Assim a compra na feira, direto com o produtor fica claro o exemplo do estilo de consumidor ecológico-trip, este pensa na sua saúde mas também nas famílias produtoras. Já os consumidores nos supermercados sobressairá o estilo ego-trip, pois estarão lembrando só em si e esquecem da responsabilidade social e do meio ambiente.

O produtor Sr. Orlando muito feliz comentou: “…A procura é cada vez maior, hoje chegam aqui dizendo: o médico me indicou que é pra comprar na feira ecológica, e há 15 anos atrás o médico não indicava.”

Ainda salientou que a demanda é muito grande, pois os produtores abastecem as feiras ecológicas em Pelotas/RS,  os restaurantes Teia Ecológica e ECO, fornecem seus produtos para a alimentação de estudantes da Rede Municipal de Ensino de Pelotas e ao Restaurante Universitário da UFPel.

Outro produtor, seu Guilherme comentou que  “Toda a família trabalha na produção”, essa é a  base da agricultura do tipo familiar. Explicou também que a maioria dos agricultores já produziu alimentos convencionais, mas com as orientações  e os apoios da EMATER, CAPA, Sul Ecológica, e Prefeitura Municipal de Pelotas eles passaram para a produção de produtos orgânicos.

Para ele “O solo tem que estar bom, a produção será boa e não temos pragas na lavoura”.  Para isto utilizam vários métodos alternativos e naturais na preparação do solo, alguns dos recursos são encontrados na própria propriedade, tais como a produção da compostagem com alimentos orgânicos, folhas de árvores, estercos, além de húmus entre outros recursos naturais. O resultado de todo esse esforço na preparação de um solo fértil é recompensado com a colheita de alimentos ricos em vitaminas, sais minerais, nutrientes e sem veneno. Assim encontraremos na “Feira Ecológica ao Entardecer” variedades de hortaliças, legumes, feijões, temperos, geléias, conservas, ovos, mel, algumas frutas, entre outros alimentos.

CERTIFICAÇÃO

Todos os produtores que fazem parte de uma associação e ou cooperativa  podem comercializar seus produtos sem o selo de Certificação de Produto Orgânico, a legislação brasileira foi generosa com o agricultor familiar. A exigência da certificação de Produto Orgânico só é necessária para à venda em supermercados ou para a exportação.

Por: Cátia Simone Castro Gabriel da Silva
Discente Bacharelado em Antropologia Social e Cultural – UFPel

Referência bibliográfica:
Guivant, Julia S. Os supermercados na oferta de alimentos orgânicos: apelando ao estilo de vida ego-trip. Ambient. soc., Dez 2003, vol.6, no.2, p.63-81.

10
Apr

Produção de alimentos na comunidade Quilombolas dos Teixeiras

No interior do município de Mostardas, a Emater/RS-Ascar realiza um trabalho para melhorar as condições de trabalho e de vida das cerca de 100 famílias que integram a Associação Comunitária dos Quilombolas dos Teixeiras.

A Associação, fundada em 2006, tem o objetivo de buscar recursos para que a comunidade tenha condições de vida e de trabalho mais dignas. “A nossa fonte de renda é basicamente a agricultura, produzimos arroz, cebola, milho. Também são cultivados alimentos orgânicos que comercializamos na feira ecológica e existem dois grupos de artesanato vinculados à Associação”, explica o presidente da entidade, Márcio da Costa Carneiro.

Atualmente, as famílias da comunidade estão acessando projetos de habitação e conseguindo superar diversas dificuldades, como a inclusão no mercado para a comercialização dos alimentos produzidos. “Sabemos produzir, mas não sabemos comercializar. Agora estamos recebendo orientação e nos adequando a projetos, como o Programa Nacional da Alimentação Escolar. A Emater abriu nossos olhos para isso”, ressalta Carneiro.
No trabalho desenvolvido com a comunidade, os extensionistas da Emater/RS-Ascar utilizam recursos de iniciativas do governo federal e estadual, entre eles o Projeto RS Biodiversidade. A socióloga e antropóloga da Emater/RS-Ascar de Mostardas, Monica de Andrade Arnt, comenta que o trabalho com o projeto tem foco em duas ações: a primeira é capacitar os agricultores na produção de base ecológica, com ênfase na produção olerícola. Os recursos foram aplicados especialmente na instalação de estufas para a produção vegetal, que beneficiou aproximadamente 12 famílias. Também foram adquiridos insumos agroecológicos para a produção, como biofertilizantes, repelentes e inseticidas naturais.

“A produção ecológica é uma prática inerente a estas comunidades quilombolas. A maioria destes agricultores tem uma visão de mundo voltada para a produção de subsistência, sem a utilização de agrotóxicos. Com este incentivo, alguns quilombolas que ainda não eram acostumados com este tipo de produção também já estão aderindo e se mostram satisfeitos com os alimentos produzidos e a boa comercialização”, explica Monica.

Os agricultores beneficiados com as estufas realizam semanalmente uma feira na praça central do município, onde é comercializada uma grande variedade de alimentos. O segundo foco do trabalho com o projeto é relativo ao manejo de campo nativo, em áreas de produção de gado de corte. Aproximadamente 15 famílias estão sendo beneficiadas com a ação.

Assessoria de Imprensa da Emater/RS-Ascar
Jornalista Gabriela Miranda
(51) 2125-3104
(51) 9918-6934

Fonte: http://www.emater.tche.br/site/noticias/noticia.php?id=19229

24
Feb

Governo destina R$ 21 bilhões para financiar a agricultura familiar

Os pequenos produtores representam 33% do Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário do Brasil.

A presidenta Dilma Rousseff afirmou nesta segunda-feira (24) que o governo destinou R$ 21 bilhões para financiar a safra de 2013/2014 da agricultura familiar, dos quais R$ 13,7 bilhões já foram contratados pelos pequenos produtores. Segundo ela, os agricultores estão aproveitando o crédito barato do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para expandir a produção e comprar máquinas e equipamentos.

“São mais tratores, mais caminhões, equipamentos de irrigação e resfriadores de leite, aumentando a produtividade nas lavouras e nas criações da agricultura familiar”, disse.

No programa semanal Café com a Presidenta, Dilma informou que o pequeno agricultor também pode se beneficiar das inovações tecnológicas. “No Pronaf Inovação, o crédito é bem barato para incentivar o cultivo protegido de hortifrutigranjeiros, para a automação da avicultura e da suinocultura, e também para atualização tecnológica da bovinocultura de leite.”

A presidenta explicou que o fortalecimento da agricultura familiar também inclui o apoio à comercialização dos produtos por meio da compra de uma parte dos alimentos produzidos nas pequenas propriedades e cooperativas pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). O orçamento do PAA somado ao orçamento do Pnae para 2014 é cerca de R$ 2 bilhões.

“Esses programas, o PAA e o Pnae, são muito importantes, porque, primeiro, garantem renda certa aos produtores; segundo, eles colocam produtos frescos e saudáveis na merenda escolar das crianças, nas creches e nos hospitais. E, finalmente, eles movimentam a economia dos pequenos municípios”, ressaltou.

Segundo Dilma, os pequenos produtores representam 33% do Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário do Brasil, 84% dos estabelecimentos rurais e 74% da mão de obra no campo.

Ana Cristina Campos – Agência Brasil

Fonte: http://ciclovivo.com.br/noticia/governo-destina-r-21-bilhoes-para-financiar-a-agricultura-familiar

17
Feb

Edital apoia agricultura familiar de povos e comunidades tradicionais

Começa nesta segunda-feira (17) e vai até o próximo dia 31 de março o período de inscrições de projetos para o edital de Chamada Pública para o fortalecimento de cooperativas e/ou associações de produtores rurais de base familiar.

O edital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) nº 002/2013, no valor de R$ 15 milhões, faz parte do pacote de medidas do Governo Federal para povos e comunidades extrativistas da Região Amazônica.

A ação é voltada para agricultores familiares, mulheres, jovens, quilombolas e indígenas, além de demais povos e comunidades tradicionais que cultivam a terra com base no sistema de produção agroecológico ou orgânico.

O edital tem o objetivo de investir em projetos voltados para a estruturação de circuitos locais e regionais de produção, beneficiamento, processamento, armazenamento e comercialização. A ideia é melhorar as condições de atuação no mercado governamental de alimentos – o como Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Ecoforte

O edital segue as diretrizes do Programa de Fortalecimento e Ampliação das Redes de Agroecologia, Extrativismo e Produção Orgânica (Ecoforte), em complementação às ações previstas no âmbito do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo) – Brasil Agroecológico.

São duas faixas de apoio. Uma é de R$ 70 mil, destinada a projetos que fortaleçam sistemas de produção orgânica ou de base agroecológica, apresentados por organizações com atuação comprovada nessas áreas. A outra é voltada para projetos que beneficiem exclusivamente mulheres produtoras, respeitado o limite máximo de R$ 2.800,00 por beneficiário direto do projeto.

Confira o Edital de Chamada Pública BNDES-CONAB nº 002/2013 no endereço:
http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/produtos/download/chamada_publica_bndes_conab_002_2013_Edital.pdf

O formulário de inscrição será disponibilizado para download no portal da CONAB (www.conab.gov.br ).

Fonte: http://www.incra.gov.br/index.php/noticias-sala-de-imprensa/noticias/14272-edital-apoia-agricultura-familiar-de-povos-e-comunidades-tradicionais

9
Nov

Integração de ações em assentamentos é debatida com Incra/TO

A Superintendência Estadual da Funasa no Tocantins (Suest/TO) participou, no dia 30/10, do Encontro de Ações Integradas do Programa Brasil sem Miséria, promovido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O evento ocorreu no auditório do Sebrae/TO no município de Araguatins, localizado no extremo norte do estado, região do Bico do Papagaio.

O objetivo foi debater a integração de políticas públicas nos projetos de assentamento, ações em execução ou planejadas, a fim de atender demandas no campo (como assistência técnica, crédito rural, estradas, habitações, regularização fundiária e saneamento básico).

A superintendente-substituta da Funasa no Tocantins, Selestina Delmundes Bezerra, falou do papel da Instituição ao longo dos anos em ações de saneamento básico no Brasil, principalmente nas pequenas comunidades. Destacou a atual missão da Fundação, que é de promover a saúde pública e a inclusão social por meio de ações de saneamento e saúde ambiental.

A representante apresentou, ainda, aos participantes o andamento da execução das ações de saneamento contemplados pela Funasa na região, com os recursos do PAC 1 e PAC 2, que equivale a um valor de R$ 13,5 milhões de reais.

O superintendente do Incra no Tocantins, Ruberval Silva, apresentou as diretrizes e as ações do Plano Brasil Sem Miséria — programa do Governo Federal de combate à pobreza — que serão executadas nos municípios que integram o território do Bico do Papagaio. O Incra atuará de forma integrada nos assentamentos, em conformidade com as novas diretrizes do trabalho do Governo Federal no segmento da reforma agrária.

Participaram do evento, além da Funasa e do Incra, a Agência Tocantinense de Saneamento (ATS), Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Secretaria de Estado da Agricultura, da Pecuária e do Desenvolvimento Agrário (Seagro), Secretaria de Patrimônio da União (SPU), além de lideranças dos projetos de assentamento, movimentos sociais e prefeitos eleitos.

Fonte: www.funasa.gov.br/site/funasa-promove-dia-13-i-seminario-de-esa-em-goiania

14
Sep

WORKSHOP INSUMOS PARA AGRICULTURA SUSTENTÁVEL – EMBRAPA Pelotas/RS

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A crescente demanda por alimentos, biocombustíveis e fibras reforça a importância da agricultura brasileira no cenário mundial. Contudo, a produção agrícola depende da oferta de insumos, os quais, em sua maioria são importados. Isso fragiliza o posicionamento do Brasil em relação à sustentabilidade de sua produção agrícola e colocam um desafio na prospecção de soluções alternativas neste setor. Neste contexto, a Embrapa Clima Temperado, desde 2004, vem qualificando e ampliando a geração de conhecimentos e a disponibilização de tecnologias com ênfase ao desenvolvimento de novos insumos para a agricultura a partir do aproveitamento de resíduos e coprodutos de processos agroindustriais e da mineração.
A Embrapa Clima Temperado, reconhecendo a importância estratégica do tema e, considerando os recentes avanços de conhecimento nesta temática obtidos por diversos grupos de pesquisa e instituições, organiza o “Workshop Insumos para Agricultura Sustentável”, a ser realizado entre os dias 27 a 29 de novembro de 2012.
O referido evento reunirá cientistas, produtores, empresários, professores, acadêmicos, especialistas na área e autoridades para apresentar e discutir resultados de pesquisa e extensão, aspectos tecnológicos, industriais, mercadológicos e políticos relacionados à diversificação da matriz de oferta de matérias-primas e processos tecnológicos para a cadeia de produção de insumos.

Data: 27 a 29 de novembro de 2012.
Local: Embrapa Clima Temperado, Pelotas/RS

Faça já a sua incrição, pois as vagas estão limitadas.

Acesse o site da Embrapa para obter mais informações: http://www.cpact.embrapa.br/eventos/2012/workshop_insumos/index.php

31
Jul

Projeto Quintais Orgânicos de Frutas da Embrapa: desenvolvimento sustentável para as comunidades tradicionais

Por: Cátia Simone da Silva

Sou estudante do 6º. semestre do curso de Antropologia da UFPel, e fiquei sabendo do Projeto Quintais Orgânicos de Frutas através do Sr. Alberi, engenheiro agrônomo da Embrapa, pois fomos colegas no curso sobre “Patrimônio Alimentar: Aportes Teóricos, Metodológicos para o Estudo do Rural”, coordenado pela Profa. Dra. Renata Menasche e promovido pelo Departamento de Antropologia e Arqueologia do Instituto de Ciências Humanas da UFPel.

Na época conversando com o Sr. Alberi, expliquei que possuia contatos com algumas comunidades indígenas e perguntei se ele sabia de algum projeto da Embrapa relativo a desenvolvimento sustentável para as “comunidades tradicionais”,  ele me falou sobre o “Projeto Quintais Orgânicos”, e as “Sementes Crioulas”.

O projeto Quintais Orgânicos da Embrapa Clima Temperado de Pelotas, e coordenado pelo Eng. Agrônomo Dr. Fernando R. Costa Gomes, tem o apoio da Eletrobras e da CGTEE e serve como “Contribuição para a segurança alimentar em áreas rurais, indígenas, e urbanas”, o Sr. Fernando Gomes, disse-me “O objetivo do pomar é fornecer frutas de janeiro a dezembro,  pois quando uma qualidade de fruta termina, outra planta já está produzindo”.  Além das vitaminas e nutrientes, elas possuem propriedades medicinais importantes à saúde humana.

Os Estados atendidos pelo projeto são o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná e também o Uruguai, perfazendo 113 municípios e beneficiando 42.000 pessoas. Os pomares são destinados às comunidades indígenas, quilombolas, pequenos produtores rurais, assentados, e também são implantados em escolas como pomar didático.

Hoje são distribuídas 19 espécies diferentes de frutíferas, tais como amora-preta, araçá, araticum, caqui, cereja, figo, goiaba, guabiju, guabiroba, laranja, pêssego, pitanga, romã entre outras, algumas bem exóticas e difíceis de serem encontradas aqui na região, mas que se adaptam bem ao clima e ao solo, como é o caso da jabuticaba, uvaia…

No pomar orgânico, como o próprio nome diz não é utilizado nenhum agrotóxico na sua produção e as recomendações antes do plantio é apenas o uso do calcário na terra, e para a manutenção das plantas deve-se utilizar produtos naturais encontrados na própria propriedade rural, tais como estercos curtidos de aves, porcos…, e outros compostos orgânicos.

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Entrega das mudas aos indígenas da Aldeia Irapuá

O Eng. Agrônomo Dr. Fernando Gomes, decidiu atenciosamente que levaríamos primeiramente mudas de araucárias para as famílias indígenas que eu conhecia. Na foto acima está o Sr. Carlos Eloi da Embrapa, o cacique Sr. Silvino, eu e demais mbyás-guaranis arrumando as araucárias numa sombra, para depois serem plantadas na Tekoa Irapuá,  localizada na margem esquerda da BR 290 passando Caçapava do Sul, precisamente no Km 299.

O cacique Sr. Silvino disse-me que  vivem no local cerca de 13 famílias, totalizando em média 60 pessoas, encontrando-se em número maior as crianças, o número de pessoas varia devido a mobilidade que lhes é própria, podendo  aumentar ou diminuir.

Os mbyá utilizam para subsistência a agricultura familiar, a produção e vendas de artesanatos e apresentações culturais do coral Mirim, onde através da música e dos artesanatos expressam a sua cultura e sociocosmologia. Ver o meu artigo “Arte e territorialidade dos mbyá-guarani da Tekoa Irapuá de Caçapava do Sul”, apresentado no II Fórum Internacional da Temática Indígena/UFPel.

Após, levamos mudas de araucárias para moradores do Assentamento União em Canguçú, e em alguns meses quando retornamos com os insumos para a preparação da terra onde seriam plantados os pomares, pude perceber as araucárias grandinhas e bem cuidadas, revestindo-se de muita satisfação para mim e os estagiários da Embrapa ao vermos o bom desempenho das famílias em plantarem e cuidarem as mudas.

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Gustavo, Cátia e Leonardo

Essa foto é do dia 24 de julho de 2012, na frente de um dos viveiros na Embrapa da Cascata em Pelotas/RS. O responsável técnico pelo Projeto é o Gustavo Andrade, que supervisiona os estagiários, auxiliando-os desde o plantio das sementes, manutenção das mudas, até à entrega. Na ocasião estava me repassando as mudas de frutíferas que foram levadas para as três famílias de agricultores descendentes de guarani e kaingang, à Sra. Maria de Lourdes da Silva,  o Sr. Davi Alves de Moura, e seu filho Gilmar Alves de Moura, moradores do Assentamento União, em Iguatemi no Quinto Distrito de Canguçú, Rio Grande do Sul/Brasil.

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Sr. Davi, sua esposa Geni e Cátia

O meu interesse de pesquisa e trabalho é junto às comunidades tradicionais. Na foto acima está uma das famílias  beneficiadas, são agricultores, o Sr. Davi Alves Moura é orgulhoso de ser descendente de guarani,  o trabalho agrícola é a principal fonte de subsistência da família, juntamente com a criação diversificada de animais.

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Ramão, Leonardo e Maria de Lourdes

Para a entrega dos pomares foram os estagiários Leonardo Fonseca, estudante de Agronomia da UFPel e Ramão Timm, estudante do curso de Agropecuária do CAVG, os quais forneceram as orientações técnicas e as identificações das plantas, explicando aos beneficiários sobre o plantio, distanciamentos e a utilização das árvores nativas: arueira e guajuvira como quebra-vento, todas as mudas são fornecidas pelo projeto.

Para o plantio foi fornecido um mapa o qual deve ser observado a orientação do nascer do sol, onde será plantado a primeira fileira levando em consideração o porte da árvore quando adulta, sendo plantadas nessa primeira fileira a cerejeira, o pessegueiro e o caqui, e assim sucessivamente as demais frutíferas, para que a sombra de uma árvore não atrapalhe o desenvolvimento das demais.

Cabe salientar que esses dados não são uma regra fixa, é apenas uma forma de orientar o produtor, e é claro que tudo pode ser relativizado de acordo com o formato do terreno e a área disponível e também conforme o critério e interesse de cada um. O interessante disse Leonardo “Que o pomar fique perto para a sua manutenção e também na hora da visita os técnicos possam observar as plantas sem precisar procurá-las”.

Uma das características das comunidades tradicionais, é o conhecimento aprofundado sobre a natureza e seus ciclos, direcionando o manejo dos recursos naturais, e a Sra. Maria de Lourdes uma das beneficiadas comentou: “Agora não dá para plantar as mudas, pois estamos na lua nova, se plantar nessa lua a fruta sai azeda, mas dia 26 já vai mudar para a crescente, e então eu vou plantar, pois nessa lua dá frutas doces”.

Como explica Manuela Carneiro da Cunha (2009), os “saberes tradicionais” são locais, diferentes dos científicos que são universais, não é um saber fechado, acabado, mas está em constante processo de investigação e resignificação, sendo passado de uma geração para outra através da oralidade.

Durante os contatos que mantive com os grupos ameríndios, sempre atuei como explica Roberto Cardoso de Oliveira (2004), através da “antropologia da ação”, onde o “antropólogo orgânico” na busca de conhecer a cultura do outro não consegue ficar sem agir, através da “ética discursiva”, intervindo mas sempre de acordo com a cultura do outro,  preocupado com a moral e a ética, e com a boa qualidade de vida das pessoas as quais está trabalhando, respeitando os desejos e interesses dos seus interlocutores.

Referências bibliográficas:

CUNHA, Manuela Carneiro da. Cultura com aspas. “Relações e dissensões entre saberes tradicionais e saber científico”: COSAC NAIFY, 2009.

OLIVEIRA, R. C. de. O mal-estar da ética na Antropologia prática. In: OLIVEN, R. G.; MACIEL, M. E.; ORO, A P. (org.). Antropologia e ética: o debate atual no Brasil, Niterói: Eduff, 2004.

21
Jul

Diário de campo em São José do Norte/RS (Ceboleiros)

Por Thamara Costa
Discente Bacharelado em Arqueologia
FURG – Rio Grande/RS

Essa saída de campo foi realizada no dia 19/07/12. Embarquei na lancha das 14h e a ansiedade dominava meu ser. Aproveitei a viagem para pensar qual seria o primeiro lugar que iria: Depósitos de cebola? Sindicato? PROGASA?  Logo, decidi ir primeiramente ao sindicato. Lá me deparei com três moças muito atenciosas. Expliquei que pretendia trabalhar com os “ceboleiros” e umas delas disse: “Você precisa conversar com o Sr. Oracy Troina da Silva! Ainda ontem saiu uma notícia dele no jornal vou ali dentro buscar”. Disseram três locais onde poderia encontra-lo, mas não encontrei. Resolvi ir à biblioteca pública Delfina da Cunha para ver se encontrava alguma coisa a respeito da cebola, PROGASA, festa da cebola e etc.

Chegando à biblioteca encontrei a Pâmela moça que trabalha no turno da tarde e a Sueli bibliotecária. Mostraram tudo que estava ao alcance delas, me sentei em uma mesa e vasculhei todos os papéis. Encontrei informações muito relevantes para a minha pesquisa, por exemplo, um trabalho escolar onde mostra todo o funcionamento dessa indústria, e anexado junto a ele existe cópias de documentos oficiais da PROGASA. Além disso, encontrei trabalhos de conclusão de curso e também dissertações, folhetos anunciando a programação da festa da cebola e um livro intitulado “Guia informativo e turístico 1972- São José do Norte Capital Mundial da Cebola”.

Saindo da biblioteca fui procurar novamente o Sr. Oracy mais conhecido como Oraca ou Pimpão. Finalmente consegui encontra-lo saindo do sindicato e fomos até um bar que ele costuma frequentar. Chegando lá fomos até “os fundos” do bar e sentamos em uma sala e ficamos conversando. Ele já começou falando “Adoro falar, qualquer coisa tu me corta”. Perguntei se poderia gravar a nossa conversa e ele disse “Com certeza guria”. Primeiramente me identifiquei, comentei que gostaria de trabalhar com os “ceboleiros” que a questão da indústria me interessa muito… e ele já me interrompeu “a indústria? Sei tudo de lá, anota aí tenho muito coisa para falar”.

Em 1922, segundo Sr. Oracy São José do Norte recebeu o prêmio “Palma de Ouro” por ter a melhor cebola, mas pela falta de diversificação do produto todo esse prestígio, de incentivo, e de conhecimento todo esse prestígio decaiu. A cebola é o produto que dá mais kilos por hectares. Já no tempo do “Darío” entre 1964-1967 como prefeito ele cedeu um local para começar a obra da indústria com a estratégia de dar um rumo para o excedente da cebola, bloqueando a entrada desse produto e desidratando. Porém, essa ideia não teve sucesso, pois todo o processo para desidratar a cebola era muito caro e não compensava o preço final.

A fábrica no início tinha 360 funcionários revezados em três turnos de 8 horas, e Sr. Oracy salientou muito essa parte porque a PROGASA no seu auge trabalhava 24 horas. Enquanto ele falava fiquei pensando qual a relação de memória dos antigos “ceboleiros” e os atuais.  Sr. Oracy disse que hoje o prédio é ocupado pela prefeitura, onde se encontra um riquíssimo gabinete. Isso me fez refletir, pois as máquinas estão lá jogadas e acredito que não tenha nenhum incentivo em usar pelo menos uma sala para contar a história da indústria e das pessoas que passaram por lá.

Nossa conversa durou quase duas horas, e além dos assuntos da cebola Sr.Oracy comentou sobre a sua vida, arqueologia, religião, gripe espanhol, Portugal porque recentemente foi lá visitar, entre outros assuntos. Despedi-me dele, disse que pegaria a lancha das 18h, agradeci ele pela atenção. Disse que pretendia voltar na próxima semana ou na outra, e ele disse que vai separar umas fotos e uns documentos da PROGASA para mostrar-me.

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Comentário:
Gostei muito do seu diário Thamara! Já no início você expressa o anthropology blue, que é a ansiedade que todos nós sentimos quando vamos à campo, principalmente no início, pois não sabemos ao certo como seremos recebidos, quais serão as dificuldades do campo.
Outra parte interessante foi a busca por materiais na biblioteca, onde você encontrou o “Guia informativo e turístico 1972 – São José do Norte a Capital Mundial da Cebola”, é importante os dados documentais históricos, mas também é interessante privilegiar a história contada pelos próprios ceboleiros, suas cônjuges ou outros atores envolvidos, sendo expressado nas narrativas do Sr. Oracy, pois como explica Halbwachs a memória individual expressa uma memória coletiva.
Parabéns pelo ótimo início de trabalho amiga!
Abração,

Cátia Simone da Silva
Discente Bacharelado em Antropologia/UFPel