Categoria ‘Antropologia do consumo’ Antropologia

9
Nov

Cultivo de oliveiras e criação de ovelhas em Pinheiro Machado/RS

O texto trata sobre a relação entre paisagem e identidades locais, visto que a paisagem simbólica sugere uma investigação histórica e cultural e está intrinsecamente ligada a paisagem material, esta é modelada pelos usos que o homem faz do espaço.

No caso específico que trata sobre agricultura, os aspectos de uma territorialidade auxiliam na manutenção e ou surgimento de uma determinada economia local, que entre outras especificidades também dizem respeito as identidades sócio culturais de uma pessoa ou grupo. Dependendo do local onde se vive, dos gostos e habilidades dos sujeitos, não deixando de lado os aspectos geográficos, heranças e trocas culturais que permeiam o viver e o trabalhar dos indivíduos. No mesmo instante que nós produzimos uma paisagem, ela também nos produz.

Assim temos o município de Pinheiro Machado, o qual foi identificado como o melhor lugar no Brasil para o cultivo de oliveiras, isso se dá devido aos aspectos da territorialidade e da geografia, tais como: clima, solo e altitude favoráveis. Essas especificidades locais oportunizam boa produção de azeitonas que dão origem a azeites de ótima qualidade e ao aumento de produtores interessados nessa atividade.

Uma peculiaridade é a criação de ovelhas concomitante ao cultivo das oliveiras, assim que as plantas completam três anos, os rebanhos passam a utilizar o mesmo espaço, se alimentando das gramíneas, mantendo assim o terreno limpo de ervas daninhas, o solo pedregoso é ideal tanto às oliveiras quanto as ovelhas, casamento perfeito que beneficia a economia do município.

Na Fazenda Guarda Velha, da família Batalha, encontra-se a maior produção de azeitonas do Brasil, com 90 mil pés cultivados em 300 hectares. Entre as grandes produtoras também tem a Olivarium Indústria de Azeite. No entanto,  não são apenas as grandes empresas que estão produzindo azeites de ótima qualidade, pequenos e médios produtores rurais também, eles fazem o beneficiamento das azeitonas na indústria da família Batalha, no município gaúcho.

O Estado do Rio Grande do Sul é o maior produtor de azeitonas do Brasil, porém a produção ainda é pequena frente a quantidade importada. Aqui no Sul temos espaços suficientes, clima e solo favoráveis para aumentar a produção de azeites, então se conclui que só está faltando produtores com disposição para entrar no ramo do cultivo de oliveiras.

Contextualizando esse caso com autores da antropologia, para Gonçalves (2007) e Debora Leitão (2010), quando se trata de representações identitárias de um indivíduo ou grupo,  os sujeitos, objetos e coisas são indissociáveis estão interligados e mais que representar uma determinada cultura eles expressam uma forma de organização e constituição de identidades.

No caso de Pinheiro Machado a formação cultural dos produtores de oliveiras e ovinos estão interligados com a paisagem, a lida com os animais, cultivo das oliveiras, o solo, as ferramentas, etc. Enfim, tudo isso contribuem para expressar uma identidade sócio cultural local. Assim a cultura material, a imaterial, juntamente com os aspectos do ambiente possuem relações sociais entre si. Segundo Débora Leitão devem ser observados no contexto e não na unidade, e os chama de “objetos construtores” de identidades, memórias e cultura.

Entre outros exemplos os quais podemos apontar, está o cultivo de uvas na região de Caxias do Sul, Bento Gonçalves, região da serra, entre diversos exemplos de economia que tem haver com a territorialidade dos lugares, muitos produtos e saberes são oriundos de herança familiar, até mesmo trazidos pelos imigrantes e reestruturados por seus descendentes, outros nascem ou ressurgem a partir de trocas culturais potencializadas pelos fatores ambientais.

Seria interessante ampliar os estudos com o auxílio da antropologia ecológica de Tim Ingold e a fenomenologia de Merleau-Ponty, pois, ambos concordam com a relação entre humanos e não humanos, natureza e cultura, a interligação entre sujeitos, objetos e coisas.

Cátia Simone Castro Gabriel da Silva
Antropóloga Social e Cultural

3
Aug

Comercialização de alimentos orgânicos na feira ecológica “Ao Entardecer” em Pelotas.

Segundo Júlia Guivant (2003) vivemos numa sociedade individualista e globalizada e a procura por alimentos orgânicos vem crescendo, é uma escolha preocupada na busca de um estilo de vida mais saudável e tem pouco a ver com preocupações ambientais.

A autora conceitua dois tipos de consumidores ecológicos: o “ego-trip” e o “ecológico-trip”, no estilo ego-trip encontram-se os consumidores mais individualistas que buscam produtos naturais só pensando na sua própria saúde, beleza física, forma estética… Para Guillon e Willequet (GUIVANT, 2003, pág 77), neste estilo “O consumo de produtos orgânicos pode ser ocasional, e apenas uma entre outras práticas consideradas saudáveis”.

Já  o estilo ecológico-trip também pode ser considerado um tipo de consumidor ego-trip, porém, as suas decisões de consumo vão além do pensar só em si, “Seria o estilo de vida assumida frente ao meio ambiente ou de responsabilidade social” (GUIVANT, 2003, p. 64).

Na observação participante que fiz na “Feira Ecológica ao Entardecer”, no Largo do Mercado Público em Pelotas-RS, uma consumidora, Sra. Paulina explicou que compra alimentos orgânicos há 15 anos, desde que as feiras começaram aqui no município,  diz que faz esta escolha principalmente pensando na sua saúde, pelo sabor, aparência dos alimentos e por não terem agrotóxicos. Ela ressalta que “Tem pessoas que reclamam que é mais caro, mas não veem o custo x benefício, e também o trabalho das famílias produtoras”.

Assim a compra na feira, direto com o produtor fica claro o exemplo do estilo de consumidor ecológico-trip, este pensa na sua saúde mas também nas famílias produtoras. Já os consumidores nos supermercados sobressairá o estilo ego-trip, pois estarão lembrando só em si e esquecem da responsabilidade social e do meio ambiente.

O produtor Sr. Orlando muito feliz comentou: “…A procura é cada vez maior, hoje chegam aqui dizendo: o médico me indicou que é pra comprar na feira ecológica, e há 15 anos atrás o médico não indicava.”

Ainda salientou que a demanda é muito grande, pois os produtores abastecem as feiras ecológicas em Pelotas/RS,  os restaurantes Teia Ecológica e ECO, fornecem seus produtos para a alimentação de estudantes da Rede Municipal de Ensino de Pelotas e ao Restaurante Universitário da UFPel.

Outro produtor, seu Guilherme comentou que  “Toda a família trabalha na produção”, essa é a  base da agricultura do tipo familiar. Explicou também que a maioria dos agricultores já produziu alimentos convencionais, mas com as orientações  e os apoios da EMATER, CAPA, Sul Ecológica, e Prefeitura Municipal de Pelotas eles passaram para a produção de produtos orgânicos.

Para ele “O solo tem que estar bom, a produção será boa e não temos pragas na lavoura”.  Para isto utilizam vários métodos alternativos e naturais na preparação do solo, alguns dos recursos são encontrados na própria propriedade, tais como a produção da compostagem com alimentos orgânicos, folhas de árvores, estercos, além de húmus entre outros recursos naturais. O resultado de todo esse esforço na preparação de um solo fértil é recompensado com a colheita de alimentos ricos em vitaminas, sais minerais, nutrientes e sem veneno. Assim encontraremos na “Feira Ecológica ao Entardecer” variedades de hortaliças, legumes, feijões, temperos, geléias, conservas, ovos, mel, algumas frutas, entre outros alimentos.

CERTIFICAÇÃO

Todos os produtores que fazem parte de uma associação e ou cooperativa  podem comercializar seus produtos sem o selo de Certificação de Produto Orgânico, a legislação brasileira foi generosa com o agricultor familiar. A exigência da certificação de Produto Orgânico só é necessária para à venda em supermercados ou para a exportação.

Por: Cátia Simone Castro Gabriel da Silva
Discente Bacharelado em Antropologia Social e Cultural – UFPel

Referência bibliográfica:
Guivant, Julia S. Os supermercados na oferta de alimentos orgânicos: apelando ao estilo de vida ego-trip. Ambient. soc., Dez 2003, vol.6, no.2, p.63-81.

18
Jan

MARIA FECHA A PORTA

Por José Ribamar Bessa Freire

Maria Fecha Porta

Talvez a Mimosa Pudica possa nos ajudar a entender a tragédia que se abateu nessa semana sobre a região serrana do Rio de Janeiro, causando mais de 600 mortes. A Mimosa é uma plantinha sensitiva, conhecida popularmente como ‘Dormideira’, ‘Morre João’ ou ‘Maria fecha a porta’, encontrada em locais úmidos da mata atlântica ou da floresta amazônica. Possui flores pequenas, cor de rosa, um caule com espinhos e folhas divididas em vários folíolos. O que ela tem a ver com as chuvas torrenciais que tantos estragos fizeram?

As imagens televisivas mostraram um quadro desolador, com depoimentos dramáticos de sobreviventes. A correnteza, com forte estrondo, vem descendo do alto da serra. No caminho, arranca árvores, desenterra pedras, soterra casas e arrasta tudo o que encontra em sua frente: casas, carros, pontes, gente, bichos, corpos, barro, lama, entulho, lixo. Barreiras desabam nas áreas de encostas. Pequenos córregos e riachos se transformam em rios caudalosos que transbordam, irrompem velozmente pelas cidades e racham o asfalto, engolindo ruas, praças, bairros, semeando dor, sofrimento, morte. Um cenário de terra arrasada: escombros, devastação, destruição.

Ainda estamos contando, enterrando e chorando os mortos e os desabrigados em cinco cidades do Rio. A tragédia, em menores proporções, atingiu São Paulo, cuja capital ficou submersa, dando um nó no trânsito. A Folha publicou quarta-feira (12/01) foto impressionante: toneladas de garrafas plásticas cobrem o rio Pinheiro, que transbordou. Em Minas Gerais, 72 municípios estão debaixo d’água. A chuva castigou outros países – Austrália, Filipinas e Sri Lanka. Por que tanta raiva e tanta violência da natureza? Parece que o planeta está reagindo e é aqui que entra a Maria fecha a porta.

Teu pai morreu

A última vez que vi a Maria fecha a porta foi em setembro de 2007, em Soure, ilha do Marajó, acompanhado de uma pajé cabocla, Zeneida Lima, e de um sábio guarani, então com 96 anos, o karai Tupá Werá, da Aldeia de M’Biguaçu (SC). Não resisti em reconstituir uma brincadeira de infância em Manaus, que consiste em passar a ponta do dedo no meio da sua folha, dizendo: “Maria, fecha a porta que teu pai morreu”. Ela fecha. Os folíolos obedecem sempre, se inclinam numa reverência e imediatamente murcham, para logo em seguida, com o pai ressuscitado, voltarem à posição normal.

Tem algo de mágico para uma criança falar com uma planta, trocar sensibilidade com ela, provocá-la e obter uma resposta imediata, o que não é nenhuma novidade para os índios para quem não é só a Maria que fecha sua porta, é possível falar com a terra, as plantas, os bichos, os rios, os morros, as pedras. É outro sistema de pensamento. O guarani Marcos Moreira, meu aluno no curso de formação de professores, entrevistou para um trabalho de avaliação o velho karai Alexandre Acosta, da Aldeia de Jataity (RS) que declarou, entre outras coisas:

– Esta Terra que pisamos, é gente como nós, é nosso irmão. É por isso que o guarani respeita a terra, que é também um guarani. O guarani não polui a água, pois é o sangue de um karai. Esta terra tem vida, só que muita gente não sabe. É uma pessoa, tem alma. A mata, por exemplo, quando um guarani precisa cortar uma árvore pede licença, porque sabe que ela é uma pessoa. A terra é nosso parente, mas está acima de nós. Por isso ensinamos as crianças a respeitarem a terra, que até hoje se movimenta, só que não percebemos. Quando os parentes morrem, carne e corpo se misturam com a terra. Por isso, temos que respeitar esta terra e este mundo em que a gente vive.

A tragédia vivida em diferentes partes do planeta nessa última semana não é um acidente natural, mas produto de uma intervenção desastrada do homem, que esqueceu que a terra é gente como nós. As chuvas, que aterrorizam e paralisam as cidades, não causam tais estragos numa aldeia indígena. É que as cidades cresceram sem respeito ao “nosso parente”, se expandiram sem “pedir licença”, isto é, desordenadamente, agressivamente, sem planejamento de impacto ambiental e adoção de medidas para proteção de encostas, reflorestamento, uso do solo e destino do lixo urbano.

Jogar no mato

Na busca do lucro rápido e fácil, a especulação imobiliária desmatou indiscriminadamente, construiu em encostas, alterou os caminhos naturais da drenagem da água, tornando instáveis os terrenos e ferindo de morte a terra. Expulsos das áreas mais nobres, os deserdados abriram ainda mais a ferida, construindo perigosamente nos morros. Hoje, as cidades não ensinam às crianças sequer a tratar o lixo.

Quando chove, minha rua alaga. Da janela do meu apartamento, contemplo a estupidez humana. Vejo boiando garrafas pet, sacos de plástico, embalagens de alumínio, latas de refrigerantes, que entopem as grelhas dos bueiros das galerias pluviais, prejudicando a vazão da água. Na minha infância, a vovó Filó recomendava dar um destino ao lixo: “joga no mato”. Mas o lixo atirado no quintal era sobra de alimentos, casca de banana e de outras frutas, bagaço de laranja, que adubavam a terra.

Hoje, o lixo é formado por resíduos sólidos, embalagens descartáveis de plástico, lata, vidro, alumínio, mas continua predominando a mentalidade de “jogar no mato”. A foto da Folha de São Paulo é uma prova gritante do fracasso da educação ambiental na escola e no ambiente familiar. Crianças e adultos atiram o lixo em espaços coletivos, com a mentalidade patriarcal de que o espaço público é terra de ninguém e de que existem garis para limpar nossa sujeira. Quem a terra fere, com a terra será ferido?

Na visita feita ao sítio da pajé Zeneida Lima, em Soure, ela entrou no mato com o guarani Tupã Werá, conhecido no mundo não indígena como Alcindo Moreira. Os dois trocaram informações. Ali, onde qualquer pessoa, mesmo o paraense comum, só via árvores genéricas, eles viam cada espécie em particular. Alcindo dava o nome em guarani, algumas vezes também em português, descrevendo as propriedades medicinais ou alimentícias de cada planta.

– As árvores falam – disse ele – a gente é que desaprendeu e não sabe mais escutar o que elas dizem.

Gabriel Garcia Márquez conta que em dezembro de 1981 recebeu telefonema de um amigo sério e inteligente, perguntando-lhe qual era o tema da crônica da semana, que seria publicada no dia seguinte no jornal El Espectador, de Bogotá. Ele respondeu que estava escrevendo sobre o sofrimento das plantas e das flores, sustentando que elas têm alma. Alarmado, o amigo exclamou: – “Ay, carajo! Te estás volviendo maricón?”.

Meus amigos do Ceará me informam que o governador Cid Gomes – aquele que levou a sogra para Paris com dinheiro público – encaminhou à Assembléia Legislativa, em caráter de urgência, Projeto de Lei que dá poderes extraordinários ao governador para dispensar de licenciamento ambiental no Estado do Ceará uma série de atividades, dentre as quais o desmatamento, os aterros sanitários, habitação dita de interesse social, estradas de rodagem, projetos agropecuários e outras atividades e obras modificadoras do meio ambiente.

Enquanto o planeta for povoado por machos dessa estirpe, que formulam e implementam políticas públicas, não ouviremos a voz da terra e as tragédias se repetirão. Maria, fecha a porta que teu pai está morrendo.

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18
Nov

A visão antropológica do consumo

Por: Hilaine Yaccoub

Desde autores clássicos como Thorstein Veblen (1965) e Marcel Mauss (1974), que não estavam dedicados especificamente ao estudo do consumo, até autores mais contemporâneos como Mary Douglas (1979), Marshall Sahlins (1979), Pierre Bourdieu (1979), Grant McCracken (1988), Colin Campbell (1987) e Daniel Miller (1987), para citar apenas alguns dos mais importantes e citados estudiosos, o campo da Antropologia do Consumo vem se constituindo a partir da crítica às análises economicistas, utilitaristas e reducionistas do fenômeno.

A preocupação neste debate sempre foi a de mostrar o consumo como um fato social total e um grande sistema classificatório, ao mesmo tempo em que se procurava relativizar a idéia de universalidade do “homem econômico” e da própria noção de indivíduo, através da realização de diversos estudos etnográficos. Cada um dos autores que constituíram o campo da Antropologia do Consumo retirou esse fenômeno da posição de mero reflexo da produção colocando-o em um lugar central de análise, capaz de produzir um discurso sobre as relações sociais.

Abandona-se assim, uma visão utilitária do consumo, que prevalece no viés economicista, e passa a se dar a devida atenção ao significado cultural contido neste fenômeno e em suas práticas. O consumo é um fato social refratário a explicações que o reduzam ao plano individual, sendo, inversamente, sensível às interpretações que envolvem significados culturais e públicos.

Assim, o campo de estudos da Antropologia do Consumo se constituiu a partir de uma crítica às interpretações apoiadas em teorias econômicas que reduziam o fenômeno do consumo à esfera do indivíduo visto como um ser racional, que realiza a compra a partir de uma escolha em função da busca de maximização de sua utilidade. Nessa visão, o consumidor distribuiria seus gastos de modo a obter dos seus recursos (limitados) o maior retorno possível. A lógica calculista embutida no modelo economicista não abria espaço para a dimensão simbólica e social do consumo, que passou a ser defendida, inicialmente, por pioneiros como Thorstein Veblen (1965) e Marcel Mauss (1974).

Veblen (1965), Douglas (1978), Sahlins (1979) e Rocha (1985), particularmente, defenderam a idéia de se entender o consumo como um grande sistema classificatório, ou ainda, um modo privilegiado de comunicação entre os indivíduos, que pode criar “barreiras ou pontes”, nas palavras de Douglas (1978) em seu clássico trabalho, aproximando ou afastando indivíduos e grupos – enfim, criando distinções, hierarquizando, como um grande sistema totêmico, como sugeriu Rocha (1985) tomando como inspiração o trabalho de Lévi-Strauss (1970).

O texto que abriu perspectiva ao tema do consumo, marcando seu lugar como algo típico da cultura do nosso tempo foi o clássico A teoria da classe ociosa de Veblen (1965). Este livro é crucial, em primeiro lugar, por retirar o consumo da posição de simples efeito reflexo da produção e colocá-lo como fenômeno capaz de assumir um lugar destacado também como um discurso sobre as relações sociais. Veblen ultrapassou a visão utilitária do consumo, que prevalece no viés economicista, e deu a devida atenção ao significado cultural contido neste fenômeno e em suas práticas.

Veblen fez na citada obra uma contundente crítica às análises utilitaristas e instrumentalistas dos economistas, procurando mostrar de que maneira o consumo é socialmente construído. Foi, portanto, pioneiro em tirar esse fenômeno do eixo das “necessidades”, ao publicar a 1ª edição de A Teoria da Classe Ociosa no ano de 1899. Sua abordagem desloca o consumo da esfera psicológica e econômica e o joga no campo das forças sociais.
Veblen postula que o homem não é movido pela busca do ganho econômico, como queriam os economistas clássicos e neoclássicos. A análise encontrada na Teoria mostra um pensador social preocupado em identificar padrões de ação coletiva, em entender o movimento e a evolução das instituições econômicas. Sob uma forte influência das teorias evolucionistas como a de Darwin, pode-se perceber em sua obra uma linguagem coerente com este paradigma, com o uso e abuso de termos como “sobrevivência”, “adaptação seletiva” e “seleção natural”.

A tarefa intelectual de Veblen é, assim, a de identificar os hábitos de comportamento econômico coletivo surgidos durante a evolução da humanidade. Estes hábitos estariam expressando padrões de ação coletiva que evoluíam até virarem instituições econômicas. Sua análise começa com uma etnologia para entender a gênese da “classe ociosa”, localizando sua instituição na transição da “selvageria primitiva para a barbárie”, onde se encontrariam duas condições necessárias para seu aparecimento – a classe ociosa surge quando a sociedade cria a distinção entre funções “dignas” – onde preside um elemento de proeza – e funções “indignas”, que são as diárias e rotineiras (p.45).

Na verdade, atesta Veblen, o aparecimento de uma classe ociosa se dá ao mesmo tempo em que acontece o início da propriedade, já que as duas instituições seriam fruto de um mesmo conjunto de forças econômicas. Veblen aponta como um momento crucial desta “evolução cultural” quando aos poucos a atividade industrial passa a se sobrepor à atividade predatória fazendo com que a acumulação de bens tome o lugar das façanhas e proezas como um índice de “prepotência e sucesso”, e a propriedade se torna a base convencional da estima social, como prova de realização heróica ou notável.

A partir do momento que esta nova base de valores se estabelece, surge como um dos aspectos mais fundamentais neste universo a contínua comparação do indivíduo em relação à “força pecuniária” do resto da comunidade. Passa a existir uma preocupação em cada um de estar sempre acima do padrão médio da comunidade – nos termos de Veblen, cria-se uma “emulação pecuniária”, o que leva o indivíduo a querer um contínuo aumento de sua riqueza em relação aos outros, já que uma insatisfação crônica com o que se possui é estabelecida desde o início deste sistema de valores. O desejo de riqueza toma, assim, um caráter de busca infinita para se alcançar a desejada “honorabilidade pecuniária” (p.54).

Para a “classe pecuniária superior” obter consideração alheia, não basta possuir riqueza ou poder; é necessário exibir esta riqueza e poder aos olhos dos outros.

Ao mesmo tempo em que o trabalho exercido pelas classes baixas e servis é visto como algo perturbador para o alcance de uma “vida mental elevada”, coloca-se o ócio e a liberdade em relação aos processos industriais de trabalho como pré-requisitos para uma vida “digna, bela e virtuosa”. Assim, o ócio surge como um meio para se obter o respeito alheio, como um sinal de que o indivíduo alcançou determinado nível de honorabilidade pecuniária frente à comunidade (p.82).

O consumo conspícuo praticado pelo senhor, caracterizado por uma busca de excelência nos alimentos, bebidas, narcóticos, abrigo, vestimentas, divertimentos, etc., se junta a um crescente refinamento de gostos e sensibilidade, pois é preciso ter sido educado para apreciar tais objetos de consumo que vão se refinando cada vez mais. No ócio, é preciso saber consumir de forma adequada, ser um profundo connoisseur de um modo de vida especial, restrito à classe superior.

Uma das formas de enfatizar este consumo conspícuo é a ostentação da riqueza dando presentes valiosos a amigos e rivais e oferecendo festas suntuosas com o objetivo de comprovar sua maior respeitabilidade e status frente aos outros membros da comunidade. Neste momento da análise, Veblen lembra a proximidade desta atitude com o fenômeno do potlach (MAUSS, 1974), cuja prática também implica em “divertimentos custosos” (p.90).

Veblen fala, então, na criação de um “padrão de vida pecuniário” em que os gastos honorários, “conspicuamente supérfluos”, acabam sendo vistos como mais indispensáveis que muitos gastos relacionados a atividades “inferiores” básicas. Surge, assim, uma forte crítica à visão instrumentalista do homem como um ser que buscaria, antes de tudo, satisfazer suas “necessidades primárias” (p.95). Neste ponto da argumentação, ao mostrar a proeminência dos gastos supérfluos, Veblen deixa claro que o homem é, antes de tudo, um ser social cujas “necessidades” são construídas coletivamente.

Veblen prossegue observando que as atividades de consumo procurarão sempre uma alta dose de visibilidade, pois a procura é por uma opinião favorável frente à comunidade. Esta ênfase no “consumo visível” e conspícuo coloca em segundo plano o consumo relativo à vida privada dos indivíduos, constatando-se um certo “hábito de reserva” em relação aos elementos de consumo mais “obscuros” da vida privada das classes superiores, destinados ao conforto físico e à manutenção dos indivíduos. Não são assim os gastos ordinários comuns que governam os maiores esforços dos indivíduos, mas sim o “consumo ideal”, que está um pouco além do alcance, ou cujo alcance requer um certo esforço. O que está por trás deste comportamento de consumo é a competição, a necessidade eterna de comparação com os que estão na mesma classe social (p.97).

Em uma perspectiva mais abrangente, Veblen afirma que cada classe compete com a classe logo acima dela, raramente se comparando com a que fica abaixo ou muito acima. Logo conclui que, especialmente nas sociedades em que as distinções de classe sejam um tanto vagas, todos os padrões de consumo derivam, por gradações não perceptíveis, dos usos e hábitos da classe social mais elevada, que vem a ser a classe ociosa.

É, portanto, fundamental a contribuição de Veblen para o “nascimento” teórico das
discussões sobre consumo. Em primeiro lugar, por ter promovido o deslocamento da análise do nível individual, seja ele econômico ou psicológico, para o da ação social e elaboração coletiva de significados. Em seguida, Veblen processa um outro deslocamento importante ao tirar o foco de investigação da produção para o consumo, mostrando que a sociedade ocidental moderna pode e deve ser entendida a partir da ótica do consumo, pois é á que se reconhece o modo pelo qual a sociedade se classifica, se distingue e se comunica.

E por último, ao mostrar que a motivação da classe ociosa para o consumo conspícuo não é voltada para a procura do ganho máximo, como queria a visão racionalista e utilitarista dos economistas, mas sim para a exibição frente aos outros indivíduos da comunidade. Vale chamar atenção também para uma idéia importante para a pesquisa do consumo e que deriva do estudo de Veblen: trata-se da intuição do consumo como indexador simbólico. Em certo sentido, pode-se dizer que Veblen aponta para o lugar central do consumo como forma de comunicação. Daí se chega a uma possibilidade importante: o consumo como expressão de status e como fenômeno capaz de construir uma estrutura de diferenças.

O consumo é um discurso eloqüente aberto a múltiplas leituras, é mensagem em um código, permitindo aproximar e diferenciar grupos como operador de um sistema de classificação de pessoas e espaços através das coisas. Séries de produtos e serviços se articulam, pelo consumo, a séries de pessoas, grupos sociais, estilos de vida, gostos, perspectivas e desejos que nos envolvem a todos em um permanente sistema de comunicação de poder e prestígio na vida social.

Fonte: teiasdoconsumo.blogspot.com