Categoria ‘Cátia Simone da Silva’ Antropologia

2
Jan

Resenha do livro: Os Mbyá-Guarani através da sua culinária doce

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Por Cátia Simone da Silva
Discente Bacharelado em Antropologia/UFPel

Apresento a resenha do livro: “A doce cosmologia Mbyá-Guarani: uma etnografia de sabores e sabores”, (Editora Appris, 2012, 514 páginas), do antropólogo Mártim César Tempass, a mesma foi publicada na revista Espaço Ameríndio da UFRGS (http://seer.ufrgs.br/espacoamerindio/), no Volume 6, Número 2 de 2012.

Acesse a resenha completa em PDF.

Boa leitura!

19
Dec

As lendas da criação e destruição do mundo como fundamentos da religião dos Apapocúva-Guarani – Eduardo Viveiros de Castro/1987.

“As lendas da criação…” é hoje um trabalho clássico, uma das monografias mais famosas sobre etnologia brasileira, e a maior obra de Nimuendajú, servindo como referência aos estudos dos Guarani.

Escrita pelo alemão Kurt  Unkel, que veio para o Brasil em 1905, um ano após quando iniciou seu trabalho no Estado de São Paulo foi batizado pelos seus interlocutores Guarani como Nimuendajú e  em 1922 quando naturalizou-se brasileiro passou a chamar-se Curt Nimuendajú.

Nimuendajú trata do complexo profético migratório dos Apapocuva (hoje denominados Ñandeva), analisado nos mitos e correlações éticas. Também trata sobre o dualismo espiritual dos Guarani (alma-palavra celeste, alma-animal terrestre) ou por Celeste Cicarrone chamadas de alma-divina e alma-telúrica.

É importante salientar que no início do século XX, no noroeste paulista e no sul do Mato Grosso estava acontecendo um movimento de colonização por imigrantes, apoiada pela construção da estrada de ferro Noroeste do Brasil, afetando os povos indígenas daquela região (Guarani, Kaingang, Xocleng, Ofaié). Foi nesse contexto que surgiu o famoso debate de Von Lhering, em propor o extermínio dos povos indígenas para liberar as terras para os imigrantes.

Viveiros de Castro aponta no trabalho de Nimuendajú uma mistura de obstinação e desencantos dos Guarani, e contra todos as previsões negativas sobre o fim iminente da sua cultura, eles existem até hoje.

As obras de Nimuendajú exprimem muito mais os mitos e tensões inerentes ao campo antropológico-indigenista. Autodidata sem formação acadêmica, utilizou-se dos talentos de linguista, historiador, arqueólogo e cartógrafo, fez 38 expedições etnográficas e arqueológicas de 1905 a 1945 (com sua morte em campo), percorrendo vários grupos étnicos ameríndios.

Os seus estudos isentos dos compromissos teóricos-institucionais, permitiram desenvolver a capacidade de perceber as preocupações dominantes de cada cultura, e não de qualquer teoria ou escola.

O método de Nimuendajú era de caracterizar o ethos e visão de mundo do povo estudado, guiado pela percepção das culturas de cada etnia, priorizava a palavra dos indígenas, fontes documentais, o manejo da língua nativa e denunciava a miséria física e moral dos povos indígenas. Sendo defensor dos direitos dos indígenas e de suas formas culturais.

Apoiado em clássicos sobre os Guarani derivados da produção etnológica ameríndia sobre a América do Sul, o seu trabalho surpreende pela modernidade, pois temos um texto de 1914 com usos de técnicas como a  “observação participante”, domínio da língua, permanência prolongada em campo entre outras formas clássicas de fazer antropologia utilizadas na contemporaneidade.

Viveiros fala que apesar de um estilo antropológico, os trabalhos de Nimuendajú “apresentam um domínio incompleto do campo e uma formação errática”, onde ele busca “várias formas de analogias para explicar de forma arcaica o que está vendo em campo”.

Apesar das críticas de Viveiros de Castro, ele aponta para as produções que tiveram influência direta nos trabalhos subsequentes sobre os Guarani, como os autores Egon Schaden, Leon Cadogan, Pierre e Hélene Clastres entre outros.

As suas monografias também abriram pesquisas sobre a estrutura social das sociedades Jê, contribuindo para os estudos dos seus sucessores como Levi-Strauss, que em 1950 fundou a antropologia estruturalista, mudando totalmento nosso campo de estudos.

“Nimuendajú parece se equivocar, quando, à força quer demonstrar que a ocupação do litoral atlântico pelos Tupi se devera a fatores exclusivamente religiosos”, ou seja, na busca pela Terra sem mal.

As análises mitológicas estavam na ordem do dia, tratando das origens da religião ou da razão, servindo como rotas de difusão cultural e mapas de afinidades genéticas.

O problema que o Nimuendajú encontrou sobre a melancolia e o desespero do pensamento Guarani ainda está em aberto. Ele achava que a …

“…cataclismologia Guarani tem atrás de si uma mistura muito sutil de esperança e desânimo, paixão e ação, e que sua aparência negadora oculta uma poderosa força afirmativa: em meio à sua miséria, os homens são deuses.” (Pág. 24)

Apesar de muitos escritos sobre os diferentes povos Guarani (Mbyá, Ñandeva, Kayowá), ainda continuam cheios de mistérios devido à complexidade da sua cultura e a mobilidade que lhes é própria.

Nos anos 40, no trabalho de Shaden, “Aspectos Fundamentais da Cultura Guarani” (Schaden, 1959: cap. VII), fala sobre a religiosidade dos Guarani trazer o problema da influência jesuítica (cristã de modo geral) sobre a cosmologia Guarani.

Primeiramente Nimuendajú sugere que o plano religioso é o lugar do sentido na sociedade Guarani, posteriormente seus trabalhos demonstram que o plano sociológico é privilegiado nos grupos Jê.

Eduardo diz que sem as descrições etnográficas, “De sistema de parentesco, distribuição espacial, ciclo de vida, genealogia…”, se continuará sabendo pouco sobre a sociologia e do misticismo religioso Guarani.

Seres do devir, os Guarani se preparam para  após a morte se encontrarem com os deuses. “Para os Guarani a destruição do mundo não é um termo, mas uma linha de fuga que os arrasta para um além sempre adiado, e isto é o presente.”

Conclusão:

Segundo Eduardo Viveiros de Castro  nos grupos ameríndios, tanto nos grupos Jê, quanto Tupi-Guarani a cosmologia predomina sobre a organização social, e religiosa, ou seja, é parte constitutiva da estrutura social, formando assim a cultura de cada grupo.

Cátia Simone da Silva
Discente Bacharelado em Antropologia/UFPel
Integrante do NETA – Núcleo de Etnologia Ameríndia/UFPel
e do NECO – Núcleo de Estudo sobre Populações Costeiras e Saberes Tradicionais/FURG

11
Nov

Seminário etnohistória, história indígena e educação: as possibilidades na escola – UFSC

O evento aconteceu nos dias 5 e 6 de novembro de 2012, na UFSC em Florianópolis. A coordenadora do LABHIN, Dra. Ana Lúcia Vulfe Nötzold, lembrou com muita felicidade que na data o observatório estava completando 14 anos, o mesmo possui  projetos de pesquisas junto às escolas indígenas Guarani, Kaingáng e Xocleng de Santa Catarina, com o apoio da Capes e do MEC professores e alunos deslocam-se até as comunidades para produzirem suas pequisas.

Helena Alpini Rosa, funcionária da Secretaria de Educação de Florianópolis e voluntária no observatório, comentou que será enviado um relatório para a Capes com os resultados das observações feitas em campo, apontando as necessidades e modificações que as escolas indígenas necessitam, levando em consideração as especificidades de cada etnia, apontando inclusive para uma modificação no calendário escolar devido a evasão dos jovens (maiores de idade), que precisam auxiliar os pais, indo trabalhar nos períodos de safras em frigoríficos do Estado, notaram que muitos precisam fazer um percurso de 3 horas diárias para trabalhar.

Dia 5 foi desenvolvida a oficina contando com a participação de alguns professores do ensino fundamental, médio e superior de Santa Catarina, graduandos da UFSC, e eu, graduanda em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas e integrante do NETA – Núcleo de Etnologia Ameríndia da UFPel e do NECO – Núcleo de Estudos sobre Populações Costeiras e Saberes Tradicionais da FURG. Os professores presentes lamentaram que as escolas onde trabalham não os informaram sobre o Seminário, e ficaram sabendo do evento por terceiros.

seminario-labhin1Cátia Simone da Silva – Discente em Antropologia – UFPel

A oficina foi dividida em duas partes:

Pela manhã foi abordado temas sobre a Representação indígena.

Nesse momento foi apresentado um vídeo sobre representação dos indígenas, tratados temas sobre conceituação, legislação e sugestões de atividades lúdicas.

O vídeo apresentado, intitulado “Pluralidade Cultural”, desenvolvido pela TV Escola para ser abordado nas escolas públicas e privadas, está disponível através do MEC. Quem possuir interesse em adquirir para a sua escola, basta entrar em contato com o MEC.

Pela tarde foi tratado sobre a Lei 11.645

Nos informaram que o termo “índio” não é adequado, foi uma denominação dos colonizadores portugueses, e o termo correto é “indígenas”. Em Santa Catarina habitam as etnias Guarani, Kaingáng, Xocleng e Xetá, os três primeiros possuem terras demarcadas, mas os Xetá ainda não e vivem junto com  uma comunidade Kaingáng.

As professoras que estavam participando da Oficina e os pesquisadore(a)s do LABHIN comentaram que os livros trazem a história dos indígenas estereotipada dos séculos XVI e XVII e não o contexto do indígena atual, inclusive as imagens, descontruindo o que o professor está trazendo para construir a contemporaneidade.

A Profa. Ana Lúcia comentou que devido ao que é repassado nos livros, os professores continuarão reproduzindo aquela imagem do indígena do século XVI, no entanto, o professor pode trabalhar com o pior livro sobre a temática indígena e solicitar aos seus alunos reconstruirem a realidade do indígena do passado e a sua realidade na atualidade.

Já existem vários vídeos e livros para os professores trabalharem nas escolas, inclusive o vídeo documentário: Povos indígenas – conhecer para valorizar, promovido pela Secretaria do Estado do Rio de janeiro e o Museu do índio.

Sugestões de atividades didáticas sobre a temática indígena estão disponíveis no site do LABHIN, www.labhin.ufsc.br/seminario, nos sites institucionais www.socioambiental.org ,  www.museudoindio.org.br, www.funai.gov.br e www.funasa.gov.br/site .

Também foi comentado que na Constituição de 1922, na parte que trata sobre os indígenas, produzida por José Bonifácio Silva, já trata do branqueamento e todos se tornarem brancos brasileiros. E na Constituição Federal de 1988, nos artigos 231 e 232, muda aquela visão do período da ditadura e do SPI.

Jogos produzidos pelo LABHIN:

jogos-labhinCaminhando com os Kaingáng

jogos-labhin2Jogo da Memória Kaingáng

jogos-labhin1Dominó Kaingáng

Através dos jogos, o LABHIN está promovendo uma intervenção junto as escolas indígenas de ensino fundamental e médio de Santa Catarina, servindo como instrumento de transmissão da cultura ameríndia, preservando a etnohistória, vidas e costumes, cultura material e a história dos povos indígenas do Estado. No entanto, eu observei que os jogos são mais da etnia Kaingáng, senti a falta de jogos sobre a cultura Guarani, Xocleng e Xetá.

Em conformidade com a Lei 11.645, os jogos também servem de apoio aos professores das redes de ensino do país. Pedidos e informações sobre livros e jogos produzidos pelo LABHIN podem ser obtidos através do fone: (48) 3721-9642 ou labhin@live.com.

seminario-labhin2

Na foto encontram-se as Profa(s).  do ensino médio Gislane e Izabel entre outras professoras que também participaram das atividades lúdicas desenvolvidas nesta tarde.

Dia 6 de novembro aconteceu o Seminário, entre os participantes também encontravam-se os estudantes ameríndios da UFSC, representantes  e lideranças indígenas do Estado de Santa Catarina.

Na  parte da manhã os doutorandos e mestrandos integrantes do LABHIN  apresentaram aos participantes os seus trabalhos desenvolvidos sobre à temática indígena, na foto abaixo encontram-se, da esquerda para à direita Sandor, Carina, Jeniffer e Luana.

seminario-labhin

À tarde na mesa sobre Etnoterritorialidade e Educação: estavam presentes o Prof. Lúcio Tadeu Mota – UEM: Universidade de Maringá/PR, o Sr. Getúlio Narcizo – Prof. Kaingáng, Sr. Wanderlei Cardoso Moreira – Prof. Guarani, Sr. João Criti – Prof. Xokleng e o Doutorando Clovis Antonio Brighenti como mediador.

Após foi lançado o livro: Etnohistória, História Indígena e Educação: contribuições ao debate. O livro é um apanhado das pesquisas desenvolvidas pelos integrantes do LABHIN junto aos povos indígenas do Estado de Santa Catarina.

Todo o material apresentado pela coordenação e alunos integrantes do LABHIN estão disponibilizados em www.labhin.ufsc.br/seminario

Texto por Cátia Simone da Silva
Discente Bacharelado em Antropologia da UFPel
Integrante do NETA – Núcleo de Etnologia Ameríndia UFPel e
NECO – Núcleo de Estudos sobre Populações Costeiras e Saberes Tradicionais/FURG.

30
Oct

Relatório sobre o deslocamento dos indígenas Mbyá-Guarani do Acampamento do Retiro/BR 116 para a Aldeia Guarani da Colônia Maciel, Pelotas/RS.

Esse relatório foi produzido por Francisco Witt, indigenista da FUNAI/RS, aqui é relatado a atuação da FUNAI auxiliando um grupo mbyá-guarani que estavam acampados nas margens da rodovia BR 116, no Retiro e foram deslocados para a Aldeia na Colônia Maciel de Pelotas, atualmente denominada pelos mbyá-guarani como Aldeia Kapi’i Ovy (Capim Verde), até hoje a família do Sr. Lorenço Benites vivem no local.

O Relatório foi cedido gentilmente pelo Sr. Francisco Witt, para publicação nesse blog acadêmico de Antropologia Social e servir de orientação aos estudantes e pesquisadores dedicados às temáticas ameríndias.

Para ler o Relatório na íntegra clique aqui.

Obrigada ao amigo Francisco Witt!

Por Cátia Simone da Silva
Discente Bacharelado em Antropologia/UFPel
Integrante do NETA – Núcleo de Etnologia Ameríndia/UFPel
e do NECO – Núcleo de Estudos sobre Populações Costeiras e Saberes Tradicionais/FURG.

13
Sep

A transmissão do saber fazer nas pedreiras do bairro Cerro do Estado/Capão do Leão/RS

Por Cátia Simone da Silva

Esse diário de campo fez parte da pesquisa sobre “A transmissão do saber fazer nas pedreiras do bairro Cerro do Estado”, município de Capão do Leão, ao Sul do Rio Grande do Sul/Brasil. Aqui encontra-se o segundo maior bloco de granito do mundo (capaodoleaohistoriaecultura.blogspot.com.br), sendo a extração mineral uma das principais fontes de renda, juntamente com o cultivo do arroz e a pecuária. O resultado da pesquisa foi apresentado na última avaliação da disciplina de “Família e Parentesco”, ministrado pela Profa. Dra. Flávia Rieth, no 6º. Semestre do curso de Antropologia da UFPel.

A metodologia empregada foi o uso do “diário de campo”, recursos audio-visuais (fotografia e filmagens), que constituirão parte de um “documentário etnográfico” e também: um questionário semi-estruturado com perguntas a partir dos problemas em questão: “trabalho, gênero…”.

Como nasci e moro no local, sou portanto uma nativa e devo segundo Magnani (2002) “estranhar o familiar”,  o estranhamento se deu na medida que as  entrevistas iam sendo conduzidas, pois foram surgindo expressões e palavras que eu não conhecia ainda.

A pesquisa tem como foco a categoria trabalho, o qual está imbricado com a territorialidade, e é uma das principais constituições identitárias do grupo. Desta forma não poderia deixar de comentar a etmologia da palavra “trabalho”, conforme Cunha:

“Trabalho tem o sentido de torturar, derivado de tripalium (instrumento de tortura). Dá idéia inicial de “sofrer” passou-se à idéia de esforçar-se, lutar, pugnar e, por fim trabalhar; ocupar-se de um míster, “exercer o seu ofício”. Do latim: Tripalire – entrada no português, século XIII).” (NOGUEIRA, 2001. P. 38 APUD: cunha, 1987. P. 204).

No primeiro sentido de “torturar”, pode ser percebido aqui nas atividades, pois os trabalhadores ficam expostos a vários tipos de acidentes. Existem casos de mutilações dos dedos, perda da visão por lascas de pedras ou ferros, e acidentes de toda a ordem, inclusive casos de óbitos. Além das persuações das políticas públicas ambientais, vulnerabilidade econômica, sendo na maioria dos casos um trabalho informal. Mas também é visto pelos interlocutores como ocupando-se de uma atividade, e exercendo a sua profissão.

Para ler o texto na íntegra clique aqui .

10
Sep

Conferência do Prof. Alfredo Wagner na abertura da 28a RBA no dia 02 de julho de 2012 – PUC/SP

Intitulado PRÁTICAS ANTROPOLÓGICAS NO TEMPO DA RECODIFICAÇÃO

O Prof. Alfredo Wagner comentou que os 17 códigos que regem a sociedade estão tendo modificações que interferem nas práticas antropológicas, o “Tempo da recodificação” se refere as dificuldades da antropologia na atualidade.

Para nós que trabalhamos com povos tradicionais, devemos observar principalmente as alterações dos códigos relativos a territorialidade: Código de Mineração de 1967; Código Florestal de 1965; e o Código das águas. Sem esquecermos da regulamentação da Convenção 169, pois essas alterações dizem respeito aos nossos trabalhos de campo.

E ai Wagner chama atenção para algumas categorias e seus conceitos:
Conceito de território;
Conceito de identidade;
Conceito de sociedade.

Pois ele explica que o Ministério da Pesca diz que é “pescador” aquele que “pesca”,  e então muitas famílias ficam excluídas dessa condição, porque além de pescar, cultivam, caçam, ou extraem.

A pesca passou a ser tratada como uma profissão e não mais como uma identidade, no entanto, nas leis de reconhecimento dos povos tradicionais devemos prestar atenção porque na verdade não é uma profissão, é uma identidade. Então há um conflito entre uma identidade coletiva e uma ocupação, entre uma profissão e um elemento identitário.

O dado da profissão, da ocupação se sobrepoem ao da identidade, essa é uma primeira  atenção que se reflete na prática antropológica, havendo dificuldades nas pesquisas, pois temos que especificar claramente e conforme as alterações nos Códigos de quem estamos pesquisando, por exemplo: “Uma pesquisa que se define com pescador tem que cumprir aquilo que está sendo definido à pesca”.

Então teremos pescador enquanto profissão, substituindo pescador enquanto identidade, Wagner chama a atenção sobre essas transformações que terão efeito nos nossos trabalhos e vão ter efeitos sobre os processos de pesquisa.

Alfredo também comentou que na Rio + 20 o mais discutido foi os três pilares do desenvolvimento sustentável, ou seja, a integração entre o social, o econômico e o ambiental, mas que o “fator cultural é essencial e não pode ser abstraido, o dado da identidade e sobretudo aquele da auto definição”, para poder refletir sobre essa situação difícil que nós antropólogos estamos enfrentando com as alterações nos Códigos.

Para quem ainda não viu, vale muito a pena assistir http://www.youtube.com/watch?v=ThG3Fm6D49I

Por Cátia Simone da Silva
Discente Bacharelado em Antropologia Social e Cultural/UFPel
Integrante do NETA – Núcleo de Etnologia Ameríndia/UFPel e NECO – Núcleo de Estudos sobre Populações Costeiras e Saberes Tradicionais/FURG

19
Aug

A transmissão do saber fazer nas pedreiras do bairro Cerro do Estado/Capão do Leão/RS

Por Cátia Simone da Silva

Esse diário de campo fez parte da pesquisa sobre “A transmissão do saber fazer nas pedreiras do bairro Cerro do Estado”, município de Capão do Leão, ao Sul do Brasil. A extração mineral de granito é uma das principais fontes de renda do município, o saber tradicional deste trabalho faz parte do cotidiano de muitas famílias há mais de um século, sendo portanto uma herança cultural.

A metodologia empregada foi os métodos de observação participante, o uso do “diário de campo”, recursos audio-visuais (fotografia e filmagens), essas constituirão parte de um “documentário etnográfico” e também foi utilizado um questionário semi-estruturado com perguntas a partir dos problemas em questão: “trabalho e gênero”.

Como nasci e moro no local, sou portanto uma nativa, devo segundo Magnani (2002) “estranhar o familiar”, e o estranhamento deu-se na medida que ia sendo conduzido as entrevistas, pois foram surgindo expressões e palavras que eu não ainda conhecia.

A pesquisa tem como foco a categoria trabalho, o qual está imbricado com a territorialidade, e é uma das principais constituições identitárias do grupo. Desta forma não poderia deixar de comentar a etmologia da palavra “trabalho”, conforme Cunha:

“Trabalho tem o sentido de torturar, derivado de tripalium (instrumento de tortura). Dá idéia inicial de “sofrer” passou-se à idéia de esforçar-se, lutar, pugnar e, por fim trabalhar; ocupar-se de um míster, “exercer o seu ofício”. Do latim: Tripalire – entrada no português, século XIII).” (NOGUEIRA, 2001. P. 38 APUD: cunha, 1987. P. 204).

No primeiro sentido de “torturar”, pode ser percebido aqui nas atividades, pois os trabalhadores ficam expostos a vários tipos de acidentes. Existem casos de mutilações dos dedos, perda da visão por lascas de pedras ou ferro, e acidentes de toda a ordem, inclusive casos de óbitos. Além das persuações das políticas públicas ambientais, vulnerabilidade econômica, sendo na maioria dos casos um trabalho informal. Nas narrativas dos meus interlocutores ficou explícito o orgulho de praticarem o corte artesanal de pedras, pois ocupam-se da atividade desde criança.

Sai pela manhã  como o flâneur 1 de Walter Benjamin, (ROUANET, 1993), sem um horizonte claro para as minhas caminhadas, deixando a intuição e os acontecimentos à minha volta me conduzirem no caminho que eu deveria seguir. Saindo nesse dia com dois problemas a descobrir e mais um terceiro que surgiu durante as entrevistas.

Minha primeira dúvida é o significado do termo “marroeiro”, porque num blog sobre “A história do Capão do Leão”,  dizia que o termo graniteiro é utilizado para os que trabalham fora do DEPREC2, pois nessa empresa os trabalhadores no passado e até hoje possuem a denominação de “marroeiro”.

A outra era sobre gênero, gostaria de saber sobre o trabalho das mulheres nas pedreiras, ou se era feito só por homens, se já teve mulher, quando, e qual era a participação delas na atividade, além de auxiliarem em casa e cuidarem dos filhos.

Então, com as sensações do “Anthropology Blue” fui em direção à casa da Sra. Maria da Conceição, esposa do Sr. Teodoro Alves Pereira (85 anos), o graniteiro mais velho do município, no caminho encontrei Joel (marroeiro) e expliquei que estava fazendo um trabalho para a faculdade e perguntei se ele poderia me ajudar em uma dúvida sobre a profissão de marroeiro dentro do DEPREC, indaguei sobre qual a diferença que existia entre marroeiro e graniteiro.

Para ele: “Marroeiro ou graniteiro é a mesma coisa, cortam pedra”. Me explicou rápido, e quando eu perguntei se poderia anotar e gravar, simplismente disse-me que o Paulo Antônio me daria uma explicação melhor, e já pegou o celular e ligou para o colega de serviço explicando o que eu queria e dizendo: “ela já está indo aí”.

Quando cheguei no escritório do DEPREC, o Sr. Paulo Antônio também me explicou muito rápido e quando perguntei se ele permitia uma gravação, ele disse, “O Jairo já está chegando e é ele que vai te explicar melhor”.

O Sr. Jairo Umberto Pereira Costa, é o administrador da Superintendência do Porto de Rio Grande aqui no bairro, local onde se deu as entrevistas. Ficou contente quando eu disse que privilegiava as histórias orais contadas pelos próprios atores  envolvidos nas temáticas de pesquisa: aqui são os graniteiros, suas cônjuges e ou outros.

A partir de uma pergunta com a filmadora desligada, eu conversava com o Sr. Jairo, somente após as explicações é que eu gravava a minha pergunta e a explicação dele. Essa técnica eu descobri na hora, com a alteridade senti que assim ficava melhor para ele se preparar com a resposta. Conforme o desenrolar das respostas eu já observava e preparava outras perguntas que estavam contidas naquela resposta, solicitando mais detalhes.

Subjetivamente o Sr. Jairo expressava no presente uma memória coletiva do passado, onde foram narrados dados históricos da empresa Compagne Française Du Port do Rio Grande do Sul, que chegou e originou o bairro no início do século XX, e após foi sucedida por uma empresa americana e duas brasileiras.

Comentou: “Nós temos aqui equipamentos franceses e americanos, essas empresas trouxeram especialistas em pedra para cá, foram geólogos alemães, italianos, americanos que contribuiram com o desenvolvimento da técnica do corte do granito aqui no município, pois antes era feito com cunha de madeira e depois passaram a usar o ponchote”.

Também narrou fatos da sua vida pessoal e de outros que diziam respeito sobre a profissão de cortador de pedra. Explicou que iniciou na profissão desde cedo, aprendeu com o pai, e aos 18 anos entrou como funcionário do DEPREC2, onde exercia a função de “marroeiro”, disse-me que todos que cortam pedras são graniteiros e dentro desta profissão existem várias funções; foguista, marroeiro, cortador de pedra,… explicou cada uma delas. “A denominação marroeiro, se dá porque os trabalhadores usavam uma ferramenta chamada “marrão” para bater e amiudar as pedras”.

Comentou os nomes das ferramentas utilizadas para o corte da pedra: o ponchote, ponteiro, recaladeira, marrão, maceta…, e suas utilizações, alguns nomes ainda em francês, herança da empresa francesa de extração mineral.

Indaguei ao Sr. Jairo sobre como identificam o veio da pedra, ele me respondeu:
_ “O veio da pedra aqui na nossa região é identificado no sentido que nasce o sol, do leste para o oeste teremos o “seda”, em oposto, sentido norte – sul, teremos o “trincante”, e outros…”.

O Sr. Jairo me forneceu várias informações que eu precisava e auxiliou-me muito na minha pesquisa, nos despedimos pois já era quase meio-dia.

À tarde, fui conversar com o casal de vizinhos, a Sra. Maria da Conceição Pereira, mais conhecida por “Negrinha”e o Sr. Teodoro Alves Pereira, também conhecido como “Doro”, ele é “o graniteiro mais velho do município”,  com ele busquei a sua história de vida e também informações a respeito da sua profissão, já que está com 82 anos e trabalhou até poucos anos atrás.

Ele explicou que iniciou na profissão desde cedo, pois na escola brigou com uma colega e chamaram o seu pai,  que era o maquinista do trem e funcionário do DEPREC. E disseram: “Pantaleão ou é tú no DEPREC ou o Teodoro no colégio”. O Sr. Teodoro lembra da decisão que o pai tomou: “Ah, o meu pai não pensou duas vezes, me falou amanhã tú pega a panela com comida e vai pro Cerro das Almas trabalhar nas pedreiras”.

“Desde os 13 anos corto pedra, aprendi com três amigos, a gente aprende a fazer todo o serviço sozinho, eles te riscavam uma pedra, te diziam e depois não falavam mais e aí o cara tinha que fazer”.

Pensando na relação com gênero conversei com a Sra. Maria da Conceição e ela comentou que “Além de criar os dez filhos, lavar-roupa e fazer todo o serviço da casa ainda ajudava o marido na pedreira, criei os meus filhos com o dinheiro das pedreiras.”

Ela exercia várias funções ao mesmo tempo: “cortava paralelepípedos, separava montes de pedra de obra, irregular,… ajudava a colocar as pedras para cima do caminhão… e no serviço da pedreira tinha a ajuda de todos os filhos mais velhos.”

Ainda sobre as questões de gênero, todos os meus interlocutores conheceram algumas mulheres que exerceram a profissão, uma chamada Flor, outra Noemi, Maria da Conceição, suas filhas Tânia e Vera, entre outras que não sabiam o nome.

Durante as entrevistas na casa do Sr. Teodoro, o seu filho mais velho Roberto Almeida Pereira me disse: “Vai lá na pedreira, estamos fazendo um furo”. Fui e encontrei o Roberto e Luiz Fernando da Cruz Joaquim, mais conhecido por “Luizinho” e vi como eles abrem uma pedreira,  perguntei para o Roberto o que eles estavam fazendo no momento, ele é marteleteiro e foguista, e me explicou: “estamos furando a pedreira para detonar”. O  furo era feito com uma marreta batendo em cima de uma broca, depois de terem atingido vários centrímetros de profundidade, encontraram uma “genda”. Roberto explicou que “Teriam que passar pela genda e cortar bem, senão estariam ralados…”.

pedreira

Sentado está o Luiz Fernando, Silvio Medeiros, e na direita o Roberto.

A pedreira era do Luizinho, através da reciprocidade o Roberto está ajudando-o a fazer o furo no “trincante de plumo”, outro amigo o Silvio Medeiros estava só olhando. Eles disseram: “Uns ajudam os outros, pois quando precisamos sempre temos com quem contar”.

Após umas 6 horas o furo estava pronto, com uma réqua foi traçado o trincante, que depois foi perfurado com os ponchotes, essa ferramenta dá direção ao corte na hora em que a rocha for dinamitada. Explicaram também que esse processo manual dependendo leva até um dia, e se pedissem para o patrão furar com o compressor, levaria uns 10 minutos.

No entanto, outros graniteiros me explicaram que mesmo obtendo a ajuda do patrão, eles dependerão da hora que o patrão poderá ir, e também se revestirá em uma espécie de compromisso com o patrão, que irá determinar o que será cortado e o valor que custará.

A dificuldade de possuírem um compressor é o valor, que para eles é muito caro, Luiz Fernando comentou:

“Um usado custa em torno de R$ 5.000.00 à R$ 6.000,00 e a broca uns R$ 80,00. Na ponta da broca tem uma vídia de diamante que perfura a rocha, e isso os mais baratos que são feitos com motor de um caminhão Scania, pois existem outros bem mais caros”.

Também  obtive dados pessoais sobre as suas inserções na atividade, com quem aprenderam, idade que iniciaram… suas funções, e informações referentes a atividade em questão.

Após algumas horas de gravações, ainda tinham que fabricar a pólvora para dinamitar a pedreira, infelizmente não pude permanecer e despedi-me agradecendo, na hora Luizinho e Roberto disseram “Tomara que tú tenha trazido sorte para nós”,  e eu disse que tinha levado sim. Após algumas horas em casa ouvi o barulho da explosão, e em alguns dias depois descobri que haviam dado um bom corte.

Notas:

1 –  A ideia do flâneur, passeando e vai descrevendo o que vê, a duração do passado dentro do presente, percorrendo e descrevendo um lugar dentro das suas temporalidades. Pois os dados não são só coletados, mas também construídos. Benjamin, vem com a ideia de bricouleur, onde o flâneur coletando imagens, registrando memórias, fotografando e produzindo imagens  busca uma lógica  a esses fragmentos.

2 –  DEPREC – Significa: Departamento de  Portos Rios e Canais.


Referências bibliográficas:

ROUANET, Sérgio Paulo. A razão nômade. Walter Benjamin e Outros viajantes. Rio de Janeiro: UFRJ: 1993. Parte 1 – Viajando com Walter Benjamin. Cap. 1: “Viagem no Espaço: a  Cidade” (pp. 21-62).

MAGNANI, José Guilherme Cantor. 2001 “De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana”. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, ANPOCS/Edusc, vol. 17, no. 49, pp. 11-29. [Disponível tb pportal do Capes]

 

31
Jul

Projeto Quintais Orgânicos de Frutas da Embrapa: desenvolvimento sustentável para as comunidades tradicionais

Por: Cátia Simone da Silva

Sou estudante do 6º. semestre do curso de Antropologia da UFPel, e fiquei sabendo do Projeto Quintais Orgânicos de Frutas através do Sr. Alberi, engenheiro agrônomo da Embrapa, pois fomos colegas no curso sobre “Patrimônio Alimentar: Aportes Teóricos, Metodológicos para o Estudo do Rural”, coordenado pela Profa. Dra. Renata Menasche e promovido pelo Departamento de Antropologia e Arqueologia do Instituto de Ciências Humanas da UFPel.

Na época conversando com o Sr. Alberi, expliquei que possuia contatos com algumas comunidades indígenas e perguntei se ele sabia de algum projeto da Embrapa relativo a desenvolvimento sustentável para as “comunidades tradicionais”,  ele me falou sobre o “Projeto Quintais Orgânicos”, e as “Sementes Crioulas”.

O projeto Quintais Orgânicos da Embrapa Clima Temperado de Pelotas, e coordenado pelo Eng. Agrônomo Dr. Fernando R. Costa Gomes, tem o apoio da Eletrobras e da CGTEE e serve como “Contribuição para a segurança alimentar em áreas rurais, indígenas, e urbanas”, o Sr. Fernando Gomes, disse-me “O objetivo do pomar é fornecer frutas de janeiro a dezembro,  pois quando uma qualidade de fruta termina, outra planta já está produzindo”.  Além das vitaminas e nutrientes, elas possuem propriedades medicinais importantes à saúde humana.

Os Estados atendidos pelo projeto são o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná e também o Uruguai, perfazendo 113 municípios e beneficiando 42.000 pessoas. Os pomares são destinados às comunidades indígenas, quilombolas, pequenos produtores rurais, assentados, e também são implantados em escolas como pomar didático.

Hoje são distribuídas 19 espécies diferentes de frutíferas, tais como amora-preta, araçá, araticum, caqui, cereja, figo, goiaba, guabiju, guabiroba, laranja, pêssego, pitanga, romã entre outras, algumas bem exóticas e difíceis de serem encontradas aqui na região, mas que se adaptam bem ao clima e ao solo, como é o caso da jabuticaba, uvaia…

No pomar orgânico, como o próprio nome diz não é utilizado nenhum agrotóxico na sua produção e as recomendações antes do plantio é apenas o uso do calcário na terra, e para a manutenção das plantas deve-se utilizar produtos naturais encontrados na própria propriedade rural, tais como estercos curtidos de aves, porcos…, e outros compostos orgânicos.

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Entrega das mudas aos indígenas da Aldeia Irapuá

O Eng. Agrônomo Dr. Fernando Gomes, decidiu atenciosamente que levaríamos primeiramente mudas de araucárias para as famílias indígenas que eu conhecia. Na foto acima está o Sr. Carlos Eloi da Embrapa, o cacique Sr. Silvino, eu e demais mbyás-guaranis arrumando as araucárias numa sombra, para depois serem plantadas na Tekoa Irapuá,  localizada na margem esquerda da BR 290 passando Caçapava do Sul, precisamente no Km 299.

O cacique Sr. Silvino disse-me que  vivem no local cerca de 13 famílias, totalizando em média 60 pessoas, encontrando-se em número maior as crianças, o número de pessoas varia devido a mobilidade que lhes é própria, podendo  aumentar ou diminuir.

Os mbyá utilizam para subsistência a agricultura familiar, a produção e vendas de artesanatos e apresentações culturais do coral Mirim, onde através da música e dos artesanatos expressam a sua cultura e sociocosmologia. Ver o meu artigo “Arte e territorialidade dos mbyá-guarani da Tekoa Irapuá de Caçapava do Sul”, apresentado no II Fórum Internacional da Temática Indígena/UFPel.

Após, levamos mudas de araucárias para moradores do Assentamento União em Canguçú, e em alguns meses quando retornamos com os insumos para a preparação da terra onde seriam plantados os pomares, pude perceber as araucárias grandinhas e bem cuidadas, revestindo-se de muita satisfação para mim e os estagiários da Embrapa ao vermos o bom desempenho das famílias em plantarem e cuidarem as mudas.

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Gustavo, Cátia e Leonardo

Essa foto é do dia 24 de julho de 2012, na frente de um dos viveiros na Embrapa da Cascata em Pelotas/RS. O responsável técnico pelo Projeto é o Gustavo Andrade, que supervisiona os estagiários, auxiliando-os desde o plantio das sementes, manutenção das mudas, até à entrega. Na ocasião estava me repassando as mudas de frutíferas que foram levadas para as três famílias de agricultores descendentes de guarani e kaingang, à Sra. Maria de Lourdes da Silva,  o Sr. Davi Alves de Moura, e seu filho Gilmar Alves de Moura, moradores do Assentamento União, em Iguatemi no Quinto Distrito de Canguçú, Rio Grande do Sul/Brasil.

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Sr. Davi, sua esposa Geni e Cátia

O meu interesse de pesquisa e trabalho é junto às comunidades tradicionais. Na foto acima está uma das famílias  beneficiadas, são agricultores, o Sr. Davi Alves Moura é orgulhoso de ser descendente de guarani,  o trabalho agrícola é a principal fonte de subsistência da família, juntamente com a criação diversificada de animais.

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Ramão, Leonardo e Maria de Lourdes

Para a entrega dos pomares foram os estagiários Leonardo Fonseca, estudante de Agronomia da UFPel e Ramão Timm, estudante do curso de Agropecuária do CAVG, os quais forneceram as orientações técnicas e as identificações das plantas, explicando aos beneficiários sobre o plantio, distanciamentos e a utilização das árvores nativas: arueira e guajuvira como quebra-vento, todas as mudas são fornecidas pelo projeto.

Para o plantio foi fornecido um mapa o qual deve ser observado a orientação do nascer do sol, onde será plantado a primeira fileira levando em consideração o porte da árvore quando adulta, sendo plantadas nessa primeira fileira a cerejeira, o pessegueiro e o caqui, e assim sucessivamente as demais frutíferas, para que a sombra de uma árvore não atrapalhe o desenvolvimento das demais.

Cabe salientar que esses dados não são uma regra fixa, é apenas uma forma de orientar o produtor, e é claro que tudo pode ser relativizado de acordo com o formato do terreno e a área disponível e também conforme o critério e interesse de cada um. O interessante disse Leonardo “Que o pomar fique perto para a sua manutenção e também na hora da visita os técnicos possam observar as plantas sem precisar procurá-las”.

Uma das características das comunidades tradicionais, é o conhecimento aprofundado sobre a natureza e seus ciclos, direcionando o manejo dos recursos naturais, e a Sra. Maria de Lourdes uma das beneficiadas comentou: “Agora não dá para plantar as mudas, pois estamos na lua nova, se plantar nessa lua a fruta sai azeda, mas dia 26 já vai mudar para a crescente, e então eu vou plantar, pois nessa lua dá frutas doces”.

Como explica Manuela Carneiro da Cunha (2009), os “saberes tradicionais” são locais, diferentes dos científicos que são universais, não é um saber fechado, acabado, mas está em constante processo de investigação e resignificação, sendo passado de uma geração para outra através da oralidade.

Durante os contatos que mantive com os grupos ameríndios, sempre atuei como explica Roberto Cardoso de Oliveira (2004), através da “antropologia da ação”, onde o “antropólogo orgânico” na busca de conhecer a cultura do outro não consegue ficar sem agir, através da “ética discursiva”, intervindo mas sempre de acordo com a cultura do outro,  preocupado com a moral e a ética, e com a boa qualidade de vida das pessoas as quais está trabalhando, respeitando os desejos e interesses dos seus interlocutores.

Referências bibliográficas:

CUNHA, Manuela Carneiro da. Cultura com aspas. “Relações e dissensões entre saberes tradicionais e saber científico”: COSAC NAIFY, 2009.

OLIVEIRA, R. C. de. O mal-estar da ética na Antropologia prática. In: OLIVEN, R. G.; MACIEL, M. E.; ORO, A P. (org.). Antropologia e ética: o debate atual no Brasil, Niterói: Eduff, 2004.