Categoria ‘Crônicas’ Antropologia

8
May

COM O CORAÇÃO ENTERRADO NA CURVA DO RIO

José Ribamar Bessa Freire

Uma das chaves para entender o assassinato de Osama bin Laden talvez esteja no codinome ‘Geronimo’, escolhido para designar a missão norte-americana, formada por 79 membros da tropa de elite da Marinha, que entrou em território do Paquistão com quatro helicópteros ultra-sofisticados, invadiu a casa do ex-aliado da CIA, encontrou-o desarmado e o executou. Afinal, o que é que Gerônimo, chefe Apache do séc. XIX, tem a ver com essa história?

– “Nada. Isto é uma distorção da História. É um insulto e um erro que tenham usado esse nome para designar a operação” – protestou Harlyn Geronimo, bisneto do chefe Apache. Ele, que arriscou sua vida servindo à pátria na 2ª Guerra Mundial e na invasão ao Vietnã, pediu explicações do presidente Obama e exigiu que o nome Geronimo fosse retirado dos documentos oficiais referentes a essa operação.
O protesto familiar foi engrossado pelo atual líder Apache, Jeff Houser, que elogiou o sucesso da missão antiterrorista, mas em carta aberta ao presidente dos EUA, denunciou a associação entre “o símbolo heróico da resistência indígena no país ao símbolo do terrorismo internacional”. Segundo ele, isso reforça a imagem falsa, difamatória e estereotipada dos Apache, que foram tratados como selvagens com o “pretexto para a remoção forçada de suas terras”.

Vários líderes de organizações indígenas nos EUA também formalizaram suas queixas, quinta-feira passada, na Comissão de Relações Indígenas do Congresso Americano que trata dos “estereótipos racistas e das populações autóctones”. Eles exigiram que o presidente americano peça desculpas. Até agora, Barack Obama, que confraterniza com as tropas americanas, não deu qualquer resposta. Talvez porque ele concorde com os militares, para quem Geronimo e Osama são “dois renegados”. São mesmo?

Os Renegados
Fiz essa pergunta a Dee Brown, um americano que entende do assunto, não diretamente, mas consultando seu livro – Enterrem meu coração na curva do rio – publicado em 1970. Ele respondeu com o capítulo intitulado – O último Chefe Apache – que traz a biografia do guerreiro Goyaalé, nome indígena de Gerônimo (1829-1909).

Lá, ele descreve a resistência apache contra tropas mexicanas e americanas e conta como uma companhia de 400 soldados assassinou, em 5 de março de 1851, centenas de apaches desarmados, a maioria mulheres e crianças, entre as quais a mãe de Geronimo, sua mulher Alope e seus filhos.

Essa história foi reconstituída por Dee Brown, filho de um lenhador da Louisiana, quando trabalhou como bibliotecário no Ministério da Agricultura. Ele, que em sua infância havia brincado com crianças Choctaw, estava antenado para a questão indígena. Pesquisou no arquivo os documentos sobre o tema: relatórios governamentais, tratados, mapas, atas de conselhos e reuniões tribais com autoridades civis e militares, livros de pequena circulação e jornais alternativos que registraram o discurso dos índios. Concluiu que satanizaram o líder Apache:
– “Transformaram Geronimo num demônio especial, inventando histórias de atrocidades às dúzias e pedindo vigilantes para enforcá-lo, se o governo não o fizesse. A fuga do grupo de Geronimo através do Arizona foi o sinal para uma torrente de boatos intensos. Os jornais publicaram grandes manchetes: OS APACHES FUGIRAM! A simples palavra “Geronimo” tornou-se um grito de sangue”.

O autor se apoiou em declarações não de qualquer antropólogo comunista, mas do próprio general George Crook, enviado pelo Exército Americano para caçar Geronimo. Depois de conviver com os índios, o general mudou de opinião: “É muito freqüente jornais fronteiriços disseminarem toda espécie de exageros e falsidades sobre os índios, o que é copiado em jornais de elevado conceito e ampla circulação em outras partes do país, enquanto o lado índio do caso é raramente divulgado. Desta forma, as pessoas ficam com idéias falsas sobre a questão. Então, quando há o clímax, a opinião se volta contra os índios”.

Ouvir o “outro lado”. O general Crook queria que os índios fossem ouvidos, para evitar a satanização deles. Por isso, foi demitido pelo Ministério da Guerra e substituído pelo general Nelson Miles. O novo comandante das tropas organizou, em abril de 1886, uma espécie de “Operação Osama”. Mobilizou 5 mil soldados – um terço da força de combate do Exército – e milhares de milicianos civis armados, montou um custoso sistema de heliógrafos para enviar mensagens e, num clima de histeria coletiva, atacou os Apache que na época já estavam reduzidos a um “exército” de… 24 guerreiros.

A rendição
Foi aí, então, que Geronimo se rendeu, em setembro de 1886, cansado de lutar durante trinta anos contra dois exércitos: o mexicano e o americano. Na época, ele tinha seis esposas: Chee-hash-kish – com quem teve dois filhos – Nana-tha-thtith que lhe deu outro filho, Zi-yeh, She-gha, Shtsha-she e Ih-Tedda. Algumas delas, entre as quais a última, estava com Geronimo e foi com ele aprisionada…

Geronimo, suas mulheres, seus filhos e os 24 guerreiros Apache foram encarcerados. Ele permaneceu prisioneiro do governo americano durante 23 anos, quando morreu, em 1909, vítima de uma pneumonia, na prisão de Fort Sill, em Oklahoma, em cujo cemitério foi enterrado. Seus ossos foram, posteriormente, roubados por membros da sociedade secreta Skull and Bones (Crânio e Ossos) e levados para sua sede em New Haven, onde seu crânio podia ser visto dentro de um pote de vidro.

O historiador Marc Wortman, que fez essa revelação, se apoiou numa troca de correspondência entre membros da sociedade secreta – da qual fazia parte Prescott Bush, avô do ex-presidente George W. Bush – especialmente numa carta datada de junho de 1918 que ele encontrou nos arquivos da biblioteca de Yale. Agora, Harlyn Geronimo está processando o governo americano, pedindo que os ossos do seu bisavô sejam enterrados na sua terra natal, perto do rio Gila, no Novo México.

O livro de Dee Brown, que faz a biografia de Geronimo, começa com a grande marcha dos Navajo, em 1860 e termina com o massacre aos Sioux, trinta anos depois, nas margens de um riacho chamado Wounded Knee, com o exterminio de homens, mulheres e crianças. Ele conta como, em três décadas, quando a população americana pulou de 31 milhões para 62 milhões de habitantes, colonos inescrupulosos, amparados pelo próprio governo, invadiram e roubaram as terras indígenas, encontrando forte resistência por parte dos índios, que lutaram em defesa de seu território.

Nesse período se consolidou a política de remoção indígena do governo americano, que consistiu em espoliar os índios de suas terras, removendo-os para o oeste do rio Mississipi, formando o Território Indígena que deu origem ao atual estado de Oklahoma. Essa migração forçada, que semeou dor, desespero e morte, foi denominada pelos índios de ‘trilha das lágrimas’.

A rota da dor
Dee Brown, que publicou fotos dos chefes indígenas encontradas no Instituto Smithsoniano, conta como reconstruiu esse caminho: “Embora os índios que viveram durante esse funesto período tenham desaparecido da face da terra, milhões de suas palavras foram conservadas e estão contidas nos registros oficiais. Com todas essas fontes da quase esquecida história oral, tentei armar uma narrativa da conquista do Oeste Americano segundo suas vítimas, usando suas palavras sempre que possível”

Às vezes, o autor reproduz falas de oficiais do exército americano, como as do capitão Nicholas Hodt: “Os navajo, squaws e crianças correram em todas as direções e foram atacados com tiros e baionetas. Vi, ali, um soldado matando duas criacinhas e uma mulher. Ordenei imediatamente que o soldado parasse. Ele olhou, mas não obedeceu a minha ordem. Corri, mas não consegui impedi-lo de matar as duas crianças inocentes”.

Lendo o livro de Dee Brown, é possivel concluir que a Missão Osama bin Laden podia ter sido chamada com qualquer outro nome de dezenas de chefes indígenas: Geronimo, Antílope Branco, Nuvem Vermelha, Touro Sentado… Todos eles foram igualmente massacrados num processo em que não foram ouvidos.

Um oficial que cavalgava atrás do coronel Chivington conta que viu Antílope Branco, desarmado, se render, com as mãos para o alto, dizendo: Parem! Parem! “Falava isso num inglês tão bom quanto o meu”. Cruzou os braços até ser atingido. Os sobreviventes dos Cheyenne disseram que Antílope Branco cantou a canção da morte antes de expirar: ‘Nada vive muito tempo / só a terra e as montanhas’.
O corpo de Antílope Branco, como o de bin Laden, também não podia ser mostrado. Outro oficial, o capitão Soule, testemunhou: “Vi o corpo de Antilope Branco com os genitais cortados e ouvi um soldado dizer que iria fazer uma bolsa de fumo com eles”.

Diante de tanta barbárie, o cacique Sioux Sinte-Galesha criticou a guerra como forma de solucionar conflitos e apontou para a diplomacia: “Nossa vontade é viver aqui, em nossa terra, pacificamente, e fazer o possível pelo bem-estar e prosperidade de nosso povo. Quando povos entram em choque, é melhor para ambos os lados reunirem-se sem armas e conversar sobre isso, é encontrar algum modo pacífico de resolver”.

Um dos sobreviventes do massacre foi o cacique sioux Touro Sentado, que no verão de 1885 fez parte do Show do Oeste Selvagem de Buffalo Bill, viajando pelos Estados Unidos e Canadá. Ele dava as moedas que recebia às crianças pobres e famintas não indígenas e não entendia como a sociedade de consumo, que produzia tantos bens, podia ser tão indiferente aos seus pobres.
“O homem branco sabe como fazer tudo – disse – mas não sabe como distribuir isso”.

O que é que Osama bin Laden tem a ver com Geronimo e outros chefes indígenas? Os terroristas da Al Qaeda, que mataram inocentes, semeando a dor e o luto, devem estar orgulhosos, pegando carona no nome de um guerreiro que lutou por seu povo e por sua terra. De todos os modos, o tempo vai mostrar que o terrorismo de Estado praticado pelo governo americano, como forma de combater o outro terrorismo,  é uma forma truculenta, burra e ineficaz e que os índios têm razão quanto apontam o caminho da conversa e da negociação.

Fonte: www.taquiprati.com.br

18
Apr

O PAJÉ QUE FALA COM AS ÁRVORES

José Ribamar Bessa Freire
Diário do Amazonas

Sonhei a noite toda que eu era filho de Nhanderu Tenondé, o criador do mundo, mas ele não me registrava, não me reconhecia. Acordei suado, suado, num quarto de hotel em Goiânia, decidido a pedir exame do DNA de Deus pra verificar se ELE é mesmo meu pai. A paternidade divina está fora das minhas preocupações, mas tenho pensado nela sempre quando encontro meu amigo, o xamã guarani Wherá Tupã, da aldeia Yynn Moroti Wherá, município de Biguaçu, Santa Catarina.

Foi isso que aconteceu nessa Semana dos Povos Indígenas, realizada de 11 a 15 de abril, na PUC de Goiás. Desde 2003 venho encontrando Wherá Tupã com certa regularidade no curso de formação de professores guarani, que acontece duas vezes por ano, quando damos aula juntos, na mesma sala e no mesmo horário. Agora, na última quarta-feira, ambos participamos da mesa redonda Diálogos interculturais: Universidade e Sustentabilidade Indígena.

Da mesa fizeram parte também o xerente Bonfim, o karajá Raul e o tapuio Dorvalino. Moderada pela doutora Marlene Ossami de Moura, do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia, a mesa avaliou a possibilidade de diálogo entre o conhecimento científico, que circula na universidade, e o conhecimento tradicional dos índios transmitido oralmente.

A voz das plantas
Quem é esse pajé guarani que faz até o ateu mais bastardo se sentir filho de Nhanderu? Nascido em 1911, Wherá Tupá, conhecido como Alcindo Moreira, comemorou seu aniversário de cem anos no dia 25 de janeiro. Casado com dona Rosa Poty-Dja, com ela teve oito filhos – cinco mulheres e três homens – e uma prole de 43 netos, 28 bisnetos e, por enquanto, três tataranetos. Com um século de existência, esbanjando saúde e vitalidade, ele viajou de Florianópolis a Goiânia, acompanhado do filho Geraldo, só para participar da Semana.

Todo mundo se pergunta de onde é que esse homem baixinho, pernas e braços musculosos, cabelos grisalhos, olhos sempre brilhando, tira tanta força e energia? “Eu cheguei aos 100 anos, porque tive outra criação, fui educado como um guarani” – ele conta. Aprendeu a cuidar do corpo e do espírito com igual atenção. Ainda hoje, acorda com os galos, faz suas orações, conversa e dá conselho aos mais jovens, vai à roça plantar milho, feijão, aipim, batata doce e hortaliças, base de sua alimentação, onde não entra nem sal, nem açúcar.

Ele tem a certeza que o segredo de sua longevidade reside também no fato de viver sempre cercado de toda a prole, cultivando o afeto familiar. “Ninguém é feliz sozinho” – diz. Dessa forma, vai tecendo os fios da felicidade cotidiana, no convívio com as pessoas queridas, no trabalho diário no qual realiza uma série de exercícios físicos, e na preparação de uma comida saudável.

Alcindo Moreira, tcheramoi,  é o líder religioso que preside os rituais na Casa de Reza – a Opy, batiza as crianças, orienta e aconselha os jovens e cuida da saúde de todos, com ajuda de Nhanderu, de quem recebe inspiração e com quem vive em contato permanente: – “Doença? Não sei o que é isto. Médico fica longe de mim. Me trato com as plantas que cultivo na aldeia, seguindo a sabedoria dos meus antepassados”.

Ele é um sábio, um karai. Conhece tudo sobre as plantas. Aprendeu com seu pai, João Sabino Kauã, de quem recebeu algumas sementes. O plantio e a colheita das plantas são frutos da observação sistemática, mas constituem também expressões máximas da religiosidade, do trabalho coletivo e da partilha.

Em 2007, Wherá Tupã, seu filho Geraldo e eu fomos juntos à ilha do Marajó. Tive o privilégio de entrar na floresta, em Soure, com ele e com a pajé Zeneida Lima, quando assisti a uma aula de botânica dada pelos dois. Naquela ocasião, cada planta foi nomeada, identificada, cheirada, tocada com carinho, reverenciada, catalogada, classificada, analisada, com suas propriedades medicinais e alimentícias reconhecidas e enaltecidas.
– As árvores falam – disse ele – a gente é que desaprendeu e não sabe mais escutar o que elas dizem.

Caminho florido
As árvores falam e os guaranis escutam, porque para eles toda a natureza faz parte da sociedade, não está separada da cultura. As plantas, os animais, os acidentes geográficos, os rios, as montanhas, os fenômenos meteorológicos são dotados de humanidade e de consciência. “Essa terra que pisamos é o nosso irmão, ela tem vida, é uma pessoa, tem alma”.

Esse é o arandu porã, o bom conhecimento que os guarani trazem para dentro da academia e que começa a fazer parte das bibliotecas universitárias, pois aparece registrado e analisado nas monografias, dissertações, teses e livros elaborados por mestres e doutores. Alguns deles foram ouvir o xamã Wherá Tupã lá na sua aldeia.

É o caso do trabalho sobre “música e xamanismo guarani” feito na USP pela doutora Deise Lucy Montardo, hoje professora da Universidade Federal do Amazonas; do livro “O caminhar sob a luz, território Mbya à beira do oceano” da doutora Maria Inês Ladeira; das pesquisas de Ana Lucia Notzold e Flávia Melo e das dissertações defendidas na UFSC por Aguirre Neira, Ismênia Vieira, Helena Alpini e tantos outros.

Esses trabalhos criaram uma ponte entre os guarani e a Universidade, confirmando aquilo que escreveu o antropólogo Darell Posey: “Se o conhecimento do índio for levado a sério pela ciência moderna e incorporado aos programas de pesquisa e desenvolvimento, os índios serão valorizados pelo que são: povos engenhosos, inteligentes e práticos, que sobreviveram com sucesso por milhares de anos…”

A botânica é um campo que os guarani dominam bem. No que diz respeito ao uso de plantas medicinais, muitas pessoas, mesmo de diferentes aldeias, até mesmo não-indígenas, se deslocam às vezes de longe em busca dos tratamentos do xamã Alcindo Moreira, tanto para doenças físicas como espirituais. O tratamento que ele dá é muito respeitado e sua sabedoria é requisitada em vários lugares, conforme testemunhou Diogo Oliveira, numa monografia feita para o Laboratório de Etnobotânica do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina:

Na aldeia de Biguaçu existe uma vereda – a trilha da escola, chamada Tape Poty, que significa caminho florido – onde foram colocadas placas com os nomes de algumas plantas utilizadas na medicina doméstica e identificadas por Wherá Tupã. “Vocês pisam nos remédios e não sabem” ele costuma dizer.

A universidade e os índios
Esses saberes tradicionais foram, durante muito tempo, pisoteados e discriminados, por serem produzidos por culturas taxadas de “primitivas” e de “obstáculo ao progresso”. O índio Jorge Terena critica essa visão:
“Eles vêem a tradição viva como primitiva, porque não segue o paradigma ocidental. Assim, os costumes e as tradições, mesmo sendo adequados para a sobrevivência, deixam de ser considerados como estratégia de futuro, porque são ou estão no passado. Tudo aquilo que não é do âmbito do Ocidente é considerado do passado, desenvolvendo uma noção equivocada em relação aos povos tradicionais, sobre o seu espaço na história”.

Hoje, diversas instituições, como a PUC de Goiás, percebem a necessidade da troca de conhecimentos e sobretudo o fato de que a permanência dos índios na Universidade deve ser vista não apenas como uma política de inclusão social, mas principalmente como possibilidade de construção de uma outra universidade, capaz de repensar sua metodologia de produção e circulação de saberes e de conviver com taxonomias cujos critérios lógicos são outros.

Não se trata, portanto, de indagar o que a Universidade pode fazer pelos índios, mas de se perguntar o que os índios podem fazer pela Universidade, que acaba ganhando com a presença de representantes de outras culturas, de outras línguas, que trazem novos saberes e formas diferentes de produzi-los.

Dessa forma, existem propostas de criação de novos cursos, como o de agroecologia em terras indígenas, bem como de mudança curricular, com a introdução de novas disciplinas em cursos já em funcionamento. As bibliotecas universitárias também se enriquecem ao incorporarem saberes e conhecimentos, que normamente não eram registrados por escrito.

A ciência aspira a universalidade, mas só é possível obter um conhecimento universal se houver diálogo entre saberes particulares. Esse diálogo começa a ser estimulado com a presença de índios nas salas de aula, nos laboratórios e nos corredores das universidades, como ocorreu nessa semana na PUC, quando alunos de escolas públicas participaram de várias oficinas que contaram com a presença de índios.
Alcindo Whera Tupã conversou com as crianças e os jovens. Quem sabe essa nova geração aprende a falar com as árvores, eliminando o pesadelo de ter de pedir exame de DNA do Papá Tenondé!

Fonte: www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=912

4
Apr

FALTOU ALGUÉM NO VELÓRIO DO ZÉ

José Ribamar Bessa Freire
Diário do Amazonas

Os dois morreram com a mesma idade: 79 anos. Os dois foram abatidos pela mesma doença maligna contra a qual lutaram bravamente por um longo período. José Alencar (1931-2011), vice-presidente do Brasil, câncer no intestino. François Mitterand (1916-1996) presidente da França, câncer na próstata. Ambos tiveram funerais solenes com pompa de chefe de Estado. No velório do francês, porém, foi registrada uma presença, que esteve ausente no enterro do brasileiro… Clique aqui para ler mais sobre esta crônica

Fonte: www.taquiprati.com.br

29
Mar

O DETETIVE DA PALAVRA

José Ribamar Bessa Freire

A universitária Valéria Silva, do Curso de Museologia, não esperou a aula terminar. Ali mesmo, na sala, diante de seus colegas, tirou um revólver da mochila e disparou um tiro certeiro nos cornos do professor de antropologia que caiu estrebuchando numa poça de sangue e saliva, sem largar o giz que segurava entre os dedos. “Ele falava demais” – ela disse ao reitor, a quem entregou a arma, ainda trêmula, as bochechas infladas, os olhos injetados, quase saltando das órbitas.

BALA CALA DOCENTE, berraram os jornais no dia seguinte, registrando depoimentos dos colegas de Valéria, que nunca escondeu seu ímpeto assassino, nem mesmo para os vizinhos do edifício em Botafogo onde mora: – “Um dia eu ainda mato esse ladrão de discurso, que sufoca a gente. Ele fala, fala, fala e não ouve ninguém. Não deixa aluno abrir a boca. Rouba a nossa voz, nos impõe um silêncio humilhante”. Colegas e vizinhos julgavam que era apenas uma forma exagerada de expressar seu descontentamento.

E era, porque nesse relato, onde quase tudo é verdade – personagens, ‘ameaças’ de morte e até o domicílio em Botafogo – o desenlace fatal não aconteceu (ainda?) porque Valéria, por enquanto, não mata nem mosquito da dengue. O crime só foi aqui encenado para mostrar como a mídia está se lixando para os eventos acadêmicos. Uma aula, por mais excepcional que seja, jamais será notícia, a não ser que uma aluna fique nua dentro da sala ou use mini-saia como aquela estudante que causou o maior tumulto em uma faculdade de São Bernardo do Campo (SP). Mas aí, a notícia não é a aula.

Acabo de assistir a um evento acadêmico nessa quinta-feira, numa sala de aula em Niterói (RJ). A Universidade Federal Fluminense (UFF) pariu mais uma doutora. Maria do Socorro Pereira Leal, professora da Universidade Federal de Roraima, defendeu tese de doutorado no Curso de Pós Graduação em Letras. Ela analisou a disputa de terras no Brasil, a partir dos discursos dos fazendeiros, dos políticos e dos índios no processo de demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol (RR), destacando a cobertura on line de três jornais: Folha de Boa Vista, Folha de São Paulo e O Globo.

Análise do discurso
A maioria dos leitores de jornal está mais ou menos familiarizada com a Geografia, a Sociologia, a História, a Economia, a Antropologia, a Biologia e outras ciências, mas são ainda poucos os que conhecem uma disciplina chamada Análise do Discurso (AD), desenvolvida inicialmente na França, mas que hoje circula em todo o mundo, incluindo várias universidades brasileiras. A AD faz com a fala o que o microscópio faz com a célula: mostra aquilo que é invisível a olho nu.
Para isso, criou algumas técnicas que disseca o discurso das pessoas, entendendo por discurso qualquer produção da linguagem, desde o noticiário da televisão, o artigo de jornal, uma carta, um bate-papo, uma fofoca, enfim tudo aquilo que as pessoas falam ou escrevem, o que dizem e até o que deixam de dizer.

O analista do discurso é uma espécie de detetive da palavra, que descobre o sentido oculto de um texto ou daquilo que ele silencia, avaliando como o discurso faz sentido e como mudam as referências das palavras. ‘Morna’ não significa o mesmo em ‘a mamadeira está morna’ e ‘a cerveja está morna’. No primeiro caso alerta que o bebê pode beber, no segundo que o bebum não pode beber.
A tese de Socorro Leal, intitulada “Índios & brasileiros: posse da terra Brasilis nos discursos jornalístico on line, político e indígena” discute justamente os sentidos que os fazendeiros, os políticos e os índios dão a algumas palavras-símbolo como Lei, Nação, Família, Desenvolvimento, que aparentemente são auto-explicativas, mas que designam conceitos abstratos, cujo uso abusivo e estereotipado produz significados indeterminados.

A pesquisadora parte do princípio de que a língua está encharcada de história, de ideologia e mantém relação com o inconsciente. Seu fio condutor é a lei que reconhece como propriedade da União as terras onde vivem tradicionalmente os índios, garantindo a eles a posse e o usufruto permanente delas.

Por que se demarca a terra para os índios em vez de se demarcar para os outros, os não índios? Para responder essa pergunta, a autora começa analisando as manchetes sobre a homologação da Raposa Serra do Sol. Os títulos dos jornais estão direcionados a criar um consenso, tecendo uma unanimidade ao considerar a medida como uma “agressão à família roraimense”, “um obstáculo ao desenvolvimento do país” e “um atentado contra a nação brasileira, cuja soberania corre perigo”.

A menção à soberania nacional é retomada do discurso de certos setores militares, que consideram a demarcação das terras indígenas como “a criação de nações dentro de outra nação”. Este discurso acusatório exclui os índios da brasilidade e omite qualquer referência à legalidade constitucional que reconhece os direitos dos índios.

Na contramão,“há um silenciamento imposto aos índios, o direito à palavra e à voz lhes é negado”, suas declarações não são registradas no discurso jornalístico, não são entrevistados para defender o que pensam e abrir o contraditório. Nenhuma manchete foi encontrada, apontando a importância do reconhecimento dos direitos índios para o Brasil. Ao invés disso, diz-se da ‘ilegalidade’, dos ‘prejuízos’ e dos ‘efeitos péssimos para a agricultura’ que são causados pela demarcação. O argumento que levanta não só exclui as atividades da lavoura indígena como legítimas, mas as qualifica como danosas aos ‘interesses nacionais’.

A autora mostra como até mesmo as manchetes soltas, sem relação com a disputa pelas terras, projetam um discurso nacionalistóide: “o Brasil é dos brasileiros”. A tese de que “os índios não são brasileiros” vem justificar o princípio econômico de que a terra é uma mercadoria, cuja propriedade é caracterizada pela aquisição. Quem não compra,  não pode tê-la.

Sem família
A pesquisadora questiona ainda o funcionamento de um termo como ‘família’, recorrente nas manchetes dos jornais no episódio da homologação da Raposa Serra do Sol. Os sentidos evocados apelam para valores morais e políticos que em princípio, fazem parte do repertório de qualquer leitor.

Esses sentidos de família se atualizam no contexto da expulsão determinada pela Justiça daqueles que ocuparam ilegalmente as terras indígenas. Assim, os títulos dos jornais constroem uma relação exclusiva entre esse termo e a brasilidade: “as famílias de brasileiros não têm onde morar”, “cerca de 300 famílias terão que deixar a terra” ou “senador afirma que instituições não podem expulsar famílias da reserva”.

Não há uma única manchete que anuncie como as ‘famílias’ indígenas foram beneficiadas – escreve Socorro Leal, esclarecendo que isso não pode ser explicado como simples coincidência do dizer.

De que ‘família’ se diz, quando se anuncia a terra sendo disputada entre índios e brasileiros? Quais as implicações de o jornalismo poder apontar sentidos de forma que os índios ficam fora da ‘família’?  – indaga a autora. Não há nada que aponte para outra forma de organização. O núcleo de organização social mínimo dos índios é qualificado como fora da norma, não constituindo uma família. Um dos principais efeitos de sentidos é o peso negativo dessa exclusão para os índios.

O conceito de ‘desenvolvimento’ e como ele vai sendo discursivamente construído também tem um lugar de destaque. A tese analisa os sentidos que o termo adquire nos documentos dos fazendeiros e dos políticos, que vêem no reconhecimento dos direitos indígenas por parte do Governo Federal um “obstáculo de ordem legal, administrativa e política”, ou ainda “óbices e entraves” ao desenvolvimento definido como produção de riquezas e geração de renda. A relação deste discurso como meio ambiente, quando aparece nos documentos dos políticos e dos arrozeiros, esvazia e despolitiza a reivindicação dos índios.

A voz dos índios
A tese procura, finalmente, analisar o discurso dos índios, que apresenta diversas formas de resistência ao discurso SOBRE os índios. Para isso, a pesquisadora trabalha com as cartas aprovadas no final de cada Assembleia dos Povos Indígenas de Roraima, realizadas entre 2003 e 2010, e endereçadas às autoridades brasileiras. O processo de autoria coletiva desses documentos começa nas assembleias que se prolongam por um mínimo de quatro dias e contam com a participação de setecentos índios em média.

A partir de 2005, o vocábulo ‘desenvolvimento’ – diz Socorro Leal – passou a integrar o léxico das cartas indígenas analisadas, mas elas explicitam outro sentido, como no discurso de Davi Yanomami, que faz uma crítica contundente aos projetos econômicos do Estado e uma defesa do etnodesenvolvimento:
“A terra floresta só pode morrer se for destruída pelos brancos. Então, os riachos sumirão, a terra ficará friável, as árvores secarão e as pedras das montanhas racharão com o calor. Os espíritos xapiripé que moram nas serras e ficam brincando na floresta acabarão fugindo. Seus pais, os xamãs, não poderão mais deter as fumaças-epidemias e os seres maléficos que nos adoecem. Assim todos morrerão”.
Historicamente, os índios têm uma presença física no Estado, mas estão fora de suas fronteiras discursivas, apagados como cidadãos. Eles permaneceram mudos, com uma cidadania surda, incompleta e até mesmo impossibilitada, sem direito lingüístico de resposta.

“Em nossa sociedade, os índios ou quaisquer outros que falem uma língua que não a portuguesa não existem no Brasil enquanto seres falantes” – escreve Socorro, apoiada em Eduardo Guimarães que estudou o processo de constituição da língua nacional no Brasil. É que depois da Constituição de 1988, o Estado até que reconhece a existência das línguas indígenas, mas lá, dentro das aldeias. O Estado só escuta se eles falarem português, até mesmo para entrar com um processo na justiça, reivindicando seus direitos.

“O silêncio do mundo indígena, sem dúvida alguma, é um dos maiores dramas da humanidade” diz a autora, citando Le Clézio. Esse silêncio começa, agora, a ser rompido. A tese de Socorro Leal nos ajuda a entender o que está nas entrelinhas dos diferentes discursos e contribui para o conhecimento do Brasil contemporâneo.

P.S. – A tese da professora Socorro Leal, orientada pela doutora Bethania Mariani, trabalha com ferramentas criadas por Michel Pêcheux, na França, e Eni Orlandi, no Brasil. Ela foi aprovada com a nota máxima pela banca examinadora composta pelos doutores Bethania Mariani (orientadora), Belmira Magalhães, Daniel Nascimento Silva, Silvia Maria de Sousa e esse locutor que vos fala.

Fonte: www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=909