Categoria ‘Diário de bordo’ Antropologia

19
Aug

A transmissão do saber fazer nas pedreiras do bairro Cerro do Estado/Capão do Leão/RS

Por Cátia Simone da Silva

Esse diário de campo fez parte da pesquisa sobre “A transmissão do saber fazer nas pedreiras do bairro Cerro do Estado”, município de Capão do Leão, ao Sul do Brasil. A extração mineral de granito é uma das principais fontes de renda do município, o saber tradicional deste trabalho faz parte do cotidiano de muitas famílias há mais de um século, sendo portanto uma herança cultural.

A metodologia empregada foi os métodos de observação participante, o uso do “diário de campo”, recursos audio-visuais (fotografia e filmagens), essas constituirão parte de um “documentário etnográfico” e também foi utilizado um questionário semi-estruturado com perguntas a partir dos problemas em questão: “trabalho e gênero”.

Como nasci e moro no local, sou portanto uma nativa, devo segundo Magnani (2002) “estranhar o familiar”, e o estranhamento deu-se na medida que ia sendo conduzido as entrevistas, pois foram surgindo expressões e palavras que eu não ainda conhecia.

A pesquisa tem como foco a categoria trabalho, o qual está imbricado com a territorialidade, e é uma das principais constituições identitárias do grupo. Desta forma não poderia deixar de comentar a etmologia da palavra “trabalho”, conforme Cunha:

“Trabalho tem o sentido de torturar, derivado de tripalium (instrumento de tortura). Dá idéia inicial de “sofrer” passou-se à idéia de esforçar-se, lutar, pugnar e, por fim trabalhar; ocupar-se de um míster, “exercer o seu ofício”. Do latim: Tripalire – entrada no português, século XIII).” (NOGUEIRA, 2001. P. 38 APUD: cunha, 1987. P. 204).

No primeiro sentido de “torturar”, pode ser percebido aqui nas atividades, pois os trabalhadores ficam expostos a vários tipos de acidentes. Existem casos de mutilações dos dedos, perda da visão por lascas de pedras ou ferro, e acidentes de toda a ordem, inclusive casos de óbitos. Além das persuações das políticas públicas ambientais, vulnerabilidade econômica, sendo na maioria dos casos um trabalho informal. Nas narrativas dos meus interlocutores ficou explícito o orgulho de praticarem o corte artesanal de pedras, pois ocupam-se da atividade desde criança.

Sai pela manhã  como o flâneur 1 de Walter Benjamin, (ROUANET, 1993), sem um horizonte claro para as minhas caminhadas, deixando a intuição e os acontecimentos à minha volta me conduzirem no caminho que eu deveria seguir. Saindo nesse dia com dois problemas a descobrir e mais um terceiro que surgiu durante as entrevistas.

Minha primeira dúvida é o significado do termo “marroeiro”, porque num blog sobre “A história do Capão do Leão”,  dizia que o termo graniteiro é utilizado para os que trabalham fora do DEPREC2, pois nessa empresa os trabalhadores no passado e até hoje possuem a denominação de “marroeiro”.

A outra era sobre gênero, gostaria de saber sobre o trabalho das mulheres nas pedreiras, ou se era feito só por homens, se já teve mulher, quando, e qual era a participação delas na atividade, além de auxiliarem em casa e cuidarem dos filhos.

Então, com as sensações do “Anthropology Blue” fui em direção à casa da Sra. Maria da Conceição, esposa do Sr. Teodoro Alves Pereira (85 anos), o graniteiro mais velho do município, no caminho encontrei Joel (marroeiro) e expliquei que estava fazendo um trabalho para a faculdade e perguntei se ele poderia me ajudar em uma dúvida sobre a profissão de marroeiro dentro do DEPREC, indaguei sobre qual a diferença que existia entre marroeiro e graniteiro.

Para ele: “Marroeiro ou graniteiro é a mesma coisa, cortam pedra”. Me explicou rápido, e quando eu perguntei se poderia anotar e gravar, simplismente disse-me que o Paulo Antônio me daria uma explicação melhor, e já pegou o celular e ligou para o colega de serviço explicando o que eu queria e dizendo: “ela já está indo aí”.

Quando cheguei no escritório do DEPREC, o Sr. Paulo Antônio também me explicou muito rápido e quando perguntei se ele permitia uma gravação, ele disse, “O Jairo já está chegando e é ele que vai te explicar melhor”.

O Sr. Jairo Umberto Pereira Costa, é o administrador da Superintendência do Porto de Rio Grande aqui no bairro, local onde se deu as entrevistas. Ficou contente quando eu disse que privilegiava as histórias orais contadas pelos próprios atores  envolvidos nas temáticas de pesquisa: aqui são os graniteiros, suas cônjuges e ou outros.

A partir de uma pergunta com a filmadora desligada, eu conversava com o Sr. Jairo, somente após as explicações é que eu gravava a minha pergunta e a explicação dele. Essa técnica eu descobri na hora, com a alteridade senti que assim ficava melhor para ele se preparar com a resposta. Conforme o desenrolar das respostas eu já observava e preparava outras perguntas que estavam contidas naquela resposta, solicitando mais detalhes.

Subjetivamente o Sr. Jairo expressava no presente uma memória coletiva do passado, onde foram narrados dados históricos da empresa Compagne Française Du Port do Rio Grande do Sul, que chegou e originou o bairro no início do século XX, e após foi sucedida por uma empresa americana e duas brasileiras.

Comentou: “Nós temos aqui equipamentos franceses e americanos, essas empresas trouxeram especialistas em pedra para cá, foram geólogos alemães, italianos, americanos que contribuiram com o desenvolvimento da técnica do corte do granito aqui no município, pois antes era feito com cunha de madeira e depois passaram a usar o ponchote”.

Também narrou fatos da sua vida pessoal e de outros que diziam respeito sobre a profissão de cortador de pedra. Explicou que iniciou na profissão desde cedo, aprendeu com o pai, e aos 18 anos entrou como funcionário do DEPREC2, onde exercia a função de “marroeiro”, disse-me que todos que cortam pedras são graniteiros e dentro desta profissão existem várias funções; foguista, marroeiro, cortador de pedra,… explicou cada uma delas. “A denominação marroeiro, se dá porque os trabalhadores usavam uma ferramenta chamada “marrão” para bater e amiudar as pedras”.

Comentou os nomes das ferramentas utilizadas para o corte da pedra: o ponchote, ponteiro, recaladeira, marrão, maceta…, e suas utilizações, alguns nomes ainda em francês, herança da empresa francesa de extração mineral.

Indaguei ao Sr. Jairo sobre como identificam o veio da pedra, ele me respondeu:
_ “O veio da pedra aqui na nossa região é identificado no sentido que nasce o sol, do leste para o oeste teremos o “seda”, em oposto, sentido norte – sul, teremos o “trincante”, e outros…”.

O Sr. Jairo me forneceu várias informações que eu precisava e auxiliou-me muito na minha pesquisa, nos despedimos pois já era quase meio-dia.

À tarde, fui conversar com o casal de vizinhos, a Sra. Maria da Conceição Pereira, mais conhecida por “Negrinha”e o Sr. Teodoro Alves Pereira, também conhecido como “Doro”, ele é “o graniteiro mais velho do município”,  com ele busquei a sua história de vida e também informações a respeito da sua profissão, já que está com 82 anos e trabalhou até poucos anos atrás.

Ele explicou que iniciou na profissão desde cedo, pois na escola brigou com uma colega e chamaram o seu pai,  que era o maquinista do trem e funcionário do DEPREC. E disseram: “Pantaleão ou é tú no DEPREC ou o Teodoro no colégio”. O Sr. Teodoro lembra da decisão que o pai tomou: “Ah, o meu pai não pensou duas vezes, me falou amanhã tú pega a panela com comida e vai pro Cerro das Almas trabalhar nas pedreiras”.

“Desde os 13 anos corto pedra, aprendi com três amigos, a gente aprende a fazer todo o serviço sozinho, eles te riscavam uma pedra, te diziam e depois não falavam mais e aí o cara tinha que fazer”.

Pensando na relação com gênero conversei com a Sra. Maria da Conceição e ela comentou que “Além de criar os dez filhos, lavar-roupa e fazer todo o serviço da casa ainda ajudava o marido na pedreira, criei os meus filhos com o dinheiro das pedreiras.”

Ela exercia várias funções ao mesmo tempo: “cortava paralelepípedos, separava montes de pedra de obra, irregular,… ajudava a colocar as pedras para cima do caminhão… e no serviço da pedreira tinha a ajuda de todos os filhos mais velhos.”

Ainda sobre as questões de gênero, todos os meus interlocutores conheceram algumas mulheres que exerceram a profissão, uma chamada Flor, outra Noemi, Maria da Conceição, suas filhas Tânia e Vera, entre outras que não sabiam o nome.

Durante as entrevistas na casa do Sr. Teodoro, o seu filho mais velho Roberto Almeida Pereira me disse: “Vai lá na pedreira, estamos fazendo um furo”. Fui e encontrei o Roberto e Luiz Fernando da Cruz Joaquim, mais conhecido por “Luizinho” e vi como eles abrem uma pedreira,  perguntei para o Roberto o que eles estavam fazendo no momento, ele é marteleteiro e foguista, e me explicou: “estamos furando a pedreira para detonar”. O  furo era feito com uma marreta batendo em cima de uma broca, depois de terem atingido vários centrímetros de profundidade, encontraram uma “genda”. Roberto explicou que “Teriam que passar pela genda e cortar bem, senão estariam ralados…”.

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Sentado está o Luiz Fernando, Silvio Medeiros, e na direita o Roberto.

A pedreira era do Luizinho, através da reciprocidade o Roberto está ajudando-o a fazer o furo no “trincante de plumo”, outro amigo o Silvio Medeiros estava só olhando. Eles disseram: “Uns ajudam os outros, pois quando precisamos sempre temos com quem contar”.

Após umas 6 horas o furo estava pronto, com uma réqua foi traçado o trincante, que depois foi perfurado com os ponchotes, essa ferramenta dá direção ao corte na hora em que a rocha for dinamitada. Explicaram também que esse processo manual dependendo leva até um dia, e se pedissem para o patrão furar com o compressor, levaria uns 10 minutos.

No entanto, outros graniteiros me explicaram que mesmo obtendo a ajuda do patrão, eles dependerão da hora que o patrão poderá ir, e também se revestirá em uma espécie de compromisso com o patrão, que irá determinar o que será cortado e o valor que custará.

A dificuldade de possuírem um compressor é o valor, que para eles é muito caro, Luiz Fernando comentou:

“Um usado custa em torno de R$ 5.000.00 à R$ 6.000,00 e a broca uns R$ 80,00. Na ponta da broca tem uma vídia de diamante que perfura a rocha, e isso os mais baratos que são feitos com motor de um caminhão Scania, pois existem outros bem mais caros”.

Também  obtive dados pessoais sobre as suas inserções na atividade, com quem aprenderam, idade que iniciaram… suas funções, e informações referentes a atividade em questão.

Após algumas horas de gravações, ainda tinham que fabricar a pólvora para dinamitar a pedreira, infelizmente não pude permanecer e despedi-me agradecendo, na hora Luizinho e Roberto disseram “Tomara que tú tenha trazido sorte para nós”,  e eu disse que tinha levado sim. Após algumas horas em casa ouvi o barulho da explosão, e em alguns dias depois descobri que haviam dado um bom corte.

Notas:

1 –  A ideia do flâneur, passeando e vai descrevendo o que vê, a duração do passado dentro do presente, percorrendo e descrevendo um lugar dentro das suas temporalidades. Pois os dados não são só coletados, mas também construídos. Benjamin, vem com a ideia de bricouleur, onde o flâneur coletando imagens, registrando memórias, fotografando e produzindo imagens  busca uma lógica  a esses fragmentos.

2 –  DEPREC – Significa: Departamento de  Portos Rios e Canais.


Referências bibliográficas:

ROUANET, Sérgio Paulo. A razão nômade. Walter Benjamin e Outros viajantes. Rio de Janeiro: UFRJ: 1993. Parte 1 – Viajando com Walter Benjamin. Cap. 1: “Viagem no Espaço: a  Cidade” (pp. 21-62).

MAGNANI, José Guilherme Cantor. 2001 “De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana”. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, ANPOCS/Edusc, vol. 17, no. 49, pp. 11-29. [Disponível tb pportal do Capes]

 

21
Jul

Diário de campo em São José do Norte/RS (Ceboleiros)

Por Thamara Costa
Discente Bacharelado em Arqueologia
FURG – Rio Grande/RS

Essa saída de campo foi realizada no dia 19/07/12. Embarquei na lancha das 14h e a ansiedade dominava meu ser. Aproveitei a viagem para pensar qual seria o primeiro lugar que iria: Depósitos de cebola? Sindicato? PROGASA?  Logo, decidi ir primeiramente ao sindicato. Lá me deparei com três moças muito atenciosas. Expliquei que pretendia trabalhar com os “ceboleiros” e umas delas disse: “Você precisa conversar com o Sr. Oracy Troina da Silva! Ainda ontem saiu uma notícia dele no jornal vou ali dentro buscar”. Disseram três locais onde poderia encontra-lo, mas não encontrei. Resolvi ir à biblioteca pública Delfina da Cunha para ver se encontrava alguma coisa a respeito da cebola, PROGASA, festa da cebola e etc.

Chegando à biblioteca encontrei a Pâmela moça que trabalha no turno da tarde e a Sueli bibliotecária. Mostraram tudo que estava ao alcance delas, me sentei em uma mesa e vasculhei todos os papéis. Encontrei informações muito relevantes para a minha pesquisa, por exemplo, um trabalho escolar onde mostra todo o funcionamento dessa indústria, e anexado junto a ele existe cópias de documentos oficiais da PROGASA. Além disso, encontrei trabalhos de conclusão de curso e também dissertações, folhetos anunciando a programação da festa da cebola e um livro intitulado “Guia informativo e turístico 1972- São José do Norte Capital Mundial da Cebola”.

Saindo da biblioteca fui procurar novamente o Sr. Oracy mais conhecido como Oraca ou Pimpão. Finalmente consegui encontra-lo saindo do sindicato e fomos até um bar que ele costuma frequentar. Chegando lá fomos até “os fundos” do bar e sentamos em uma sala e ficamos conversando. Ele já começou falando “Adoro falar, qualquer coisa tu me corta”. Perguntei se poderia gravar a nossa conversa e ele disse “Com certeza guria”. Primeiramente me identifiquei, comentei que gostaria de trabalhar com os “ceboleiros” que a questão da indústria me interessa muito… e ele já me interrompeu “a indústria? Sei tudo de lá, anota aí tenho muito coisa para falar”.

Em 1922, segundo Sr. Oracy São José do Norte recebeu o prêmio “Palma de Ouro” por ter a melhor cebola, mas pela falta de diversificação do produto todo esse prestígio, de incentivo, e de conhecimento todo esse prestígio decaiu. A cebola é o produto que dá mais kilos por hectares. Já no tempo do “Darío” entre 1964-1967 como prefeito ele cedeu um local para começar a obra da indústria com a estratégia de dar um rumo para o excedente da cebola, bloqueando a entrada desse produto e desidratando. Porém, essa ideia não teve sucesso, pois todo o processo para desidratar a cebola era muito caro e não compensava o preço final.

A fábrica no início tinha 360 funcionários revezados em três turnos de 8 horas, e Sr. Oracy salientou muito essa parte porque a PROGASA no seu auge trabalhava 24 horas. Enquanto ele falava fiquei pensando qual a relação de memória dos antigos “ceboleiros” e os atuais.  Sr. Oracy disse que hoje o prédio é ocupado pela prefeitura, onde se encontra um riquíssimo gabinete. Isso me fez refletir, pois as máquinas estão lá jogadas e acredito que não tenha nenhum incentivo em usar pelo menos uma sala para contar a história da indústria e das pessoas que passaram por lá.

Nossa conversa durou quase duas horas, e além dos assuntos da cebola Sr.Oracy comentou sobre a sua vida, arqueologia, religião, gripe espanhol, Portugal porque recentemente foi lá visitar, entre outros assuntos. Despedi-me dele, disse que pegaria a lancha das 18h, agradeci ele pela atenção. Disse que pretendia voltar na próxima semana ou na outra, e ele disse que vai separar umas fotos e uns documentos da PROGASA para mostrar-me.

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Comentário:
Gostei muito do seu diário Thamara! Já no início você expressa o anthropology blue, que é a ansiedade que todos nós sentimos quando vamos à campo, principalmente no início, pois não sabemos ao certo como seremos recebidos, quais serão as dificuldades do campo.
Outra parte interessante foi a busca por materiais na biblioteca, onde você encontrou o “Guia informativo e turístico 1972 – São José do Norte a Capital Mundial da Cebola”, é importante os dados documentais históricos, mas também é interessante privilegiar a história contada pelos próprios ceboleiros, suas cônjuges ou outros atores envolvidos, sendo expressado nas narrativas do Sr. Oracy, pois como explica Halbwachs a memória individual expressa uma memória coletiva.
Parabéns pelo ótimo início de trabalho amiga!
Abração,

Cátia Simone da Silva
Discente Bacharelado em Antropologia/UFPel

12
Aug

UFPel – Diário de campo da viagem às Missões

Cátia Simone Castro Gabriel da Silva
Acadêmica do curso de Bacharelado em Antropologia Social e Cultural/UFPel.

Vou iniciar o meu diário em São Sepé, bem antes da parada pretendida, a “Região das Missões”. Agora são 5:40 e paramos em um posto de gasolina, Posto Cotrisel, pois o ônibus está com problemas no filtro e precisamos aguardar para o mecânico fazer o conserto.

Na viagem até aqui havia um estranhamento, na subida, o ônibus parecia que ia parar, na descida todo Santo ajuda. Porém, a escuridão, a chuva, os relâmpagos faziam aumentar o antrophological blue, traduzindo-se em uma aventura pela busca das origens históricas dos índios guaranis.

Ao amanhecer  na ida para Ijuí,  o ônibus descia uma serra e balançava muito, me senti em uma montanha russa, parecia que o freio era insuficiente, um susto, um solavanco. Nesta localidade existem muitos penhascos e se via a cidade lá embaixo. Mas felizes estamos indo em direção dos sítios arqueolólogicos e aos mbyas guaranis, passamos por um ônibus caído na beira da estrada, na localidade entre Júlio de Castilhos e Ijuí, onde duas pessoas estavam gravemente feridas, uma senhora que na hora do acidente estava no banheiro e outra grávida. Após alguns km encontramos um caminhão queimando, estava carregado com casca de arroz, a gabine queimou toda, os bombeiros apagaram o fogo e liberaram a pista às 8:30h. O dia está bom e estamos agora indo para o Sítio Arqueológico São João Batista, no atual município de Entre-Ijuís.

São 11:30 e acabamos de chegar no Patrimônio Cultural do Brasil, na antiga Redução de São João Batista, houve uma mudança no tempo e parece que irá chover. Foi aqui que aconteceu um dos fatos mais importantes para o impulso do desenvolvimento das Missões, a implantação da siderurgia, até então, qualquer ferramenta tinha que vir de lugares distantes. A descoberta do minério de ferro na pedra itacuru, ou pedra cupim, feita pelo padre Antônio Sepp, possibilitou às Reduções produzirem do sino à arma, do prego ao arado. São João Batista foi a primeira fundição de ferro e aço do Sul da América.

O prof. Claudio Carle, arqueólogo da UFPel, inicia a visita nos reportando ao passado, particularmente nos séculos XVII e XVIII, quando os padres jesuítas fundaram as Reduções, explicando que um excedente de índios guaranis foram transferidos da Redução de São Miguel Arcanjo para a de São João Batista, que possuiu uma população de mais de 4.500 índios.

Caminhamos em locais onde foram as casas dos índios, num terreno plano na frente da igreja. Este foi o penúltimo povo em extinção, as casas eram feitas de tijolos e no telhado caibros de madeira e telha de barro. O tamanho da casa dos índios era 5 x 3, fora o alpendre onde as pessoas mais permaneciam, cozinhavam e conversavam.

Ao redor da igreja e na frente ficavam as casas, ao lado direito era o cemitério e o azilo para as viúvas e órfãs, enquanto a esquerda estava a escola para as crianças, os homens aprendiam o ofício conforme o modelo capitalista imposto pelos jesuítas e o principal produto econômico era a erva-mate.

Os prédios principais ainda existem em ruínas e passamos pelo que naquela época era a rua principal. [A ruína da igreja dos jesuítas tinha três colunas que sustentavam os telhados, os tijolos eram feitos de argila, bem densos para não passar água.]

Os índios transportavam toda a terra da igreja para o fundo, então o colégio ficou mais alto (local da foto) e atrás destes dois prédios ficavam as plantações em um desnível abaixo, pomares, vinhedos e também experiências com plantas nativas. Neste sítio encontramos uma árvore de erva-mate e outra de urucum.

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Imagem 1. As pedras do que seria o colégio

Todos os horários eram marcados pelo sino da igreja, inclusive a hora da missa, onde o sermão era em guarani, porém a língua falada era o latim. Aqui era uma cidade e também precisavam de armas, então a armeria, por motivo de segurança, ficava próximo à igreja junto ao colégio.

Após a guerra da Guaratinica, que ocorreu em 1750, as famílias guaranis ainda ocupavam o lugar, permanecendo até os meados do século XIX.

O prof. Claudio Carle ainda comentou sobre as expulsões que ocorreram a partir da guerra e relacionando diacrônica e sincrônicamente com os guaranis que vivem hoje lá, apenas agora conseguindo o direito da terra.

Antes da saída fotografei o monumento histórico do fundador da Redução de São João Batista, o padre “Antônio Sepp”.

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Imagem 2. Monumento em homenagem ao padre Antônio Seep

Na chegada a cidade de São Miguel das Missões, avistamos a Cruz de Lorena, representando o símbolo do cristianismo jesuítico.

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Imagem 3. Cruz de Lorena na entrada da cidade

Na visita ao Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, senti que cada pedra não só nos transportava ao passado, mas também reportava ao valor histórico do lugar, preservado em memória dos que ali viveram em épocas passadas. Hoje essas histórias fomentam o progresso turístico da Região.

Neste lugar estão reunidos testemunhos de uma experiência de vida singular, as pedras, as imagens barrocas em madeira policromada, os sinos, o solo ondulado que revela a marca de casas indígenas, as ruínas da igreja e de outras edificações da antiga Redução, são vestígios pelos quais podemos imaginar o cotidiano missioneiro.

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Imagem 4. As ruínas da Redução de São Miguel Arcanjo

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Imagem 5. Santo Antônio de Pádua

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Imagem 6. Nossa Senhora Aparecida

Esculturas barrocas feitas pelos guaranis da Redução de São Miguel Arcanjo, nas missões jesuítas. Pode-se notar que as mãos e outras partes estão mutiladas, marcas deixadas pelos exércitos invasores, portugueses e espanhóis.

Um incêndio queimou a estrutura de madeira, o encaixe das paredes de pedra, é o que faz  a igreja estar de pé até hoje, juntamente com uma restauração feita pelos guaranis. Na torre da catedral de São Miguel se avistava a rosa dos ventos, o pátio era todo coberto, um sistema de calhas transportava a água pelo subsolo indo direto para a quinta de frutas.

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Imagem 7. A torre da Catedral da Redução de São Miguel Arcanjo

Um piso cerâmico constituía todas as construções, a cozinha possuía uma cavidade onde se localizava a adega, e o passa prato constituía o único contato do cozinheiro com os padres. No espaço ao lado da cozinha existiam várias salas onde os artesões trabalhavam em seus ofícios transmitidos pelos estrangeiros. Os ourives eram controlados pelo fato do ouro e a prata serem muito caros.

Os pedaços do telhado de barro podem ser vistos por toda a parte, a hospedaria ficava na parte inferior ao lado das salas de ofícios, dizem que era para proteger os guaranis dos visitantes brancos.

Aldeia Alvorecer – Tekoa Koénju

No 20 de junho de 2010, dia bonito com sol e pouco frio, partimos do hotel Barichello em direção a Aldeia Alvorecer, onde o cacique “Ariel” e os mbyas nos aguardam.

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Imagem 8. À esquerda Cátia e na direita Letícia indo em direção à Aldeia Alvorecer.

Como já dizia Malinowsky, temos que ir a campo para conhecer a cultura do outro. A recepção ficou a cargo do vice-cacique, onde falou que ali vivem em torno de 35 famílias, às vezes aumenta a população e depois por motivo de mudanças diminui. Pediu para nos dirigirmos à Casa de Cultura feita por brancos, com o formato de um tatu, e aguardarmos o cacique Ariel. Nenhuma foto foi possível ser tirada antes que o cacique chegasse e permitisse.

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Imagem 9. Aldeia Alvorecer – Tekoa Koénju

Dentro da casa de cultura o Ariel comentou que aquele lugar é destinado a reuniões, também estavam no centro da sala, objetos da cultura material; um violino em processo de confecção, às varinhas usada pelos xamãs – popyguás entre outros objetos.

Na aldeia, a escola de ensino fundamental foi criada em 2003, a esposa do Ariel é a única professora bilíngue, existem discordâncias culturais relativas a educação que as professoras ensinam na escola e a que as crianças aprendem por endoculturação em casa com os pais, avós e outros. As crianças aprendem em casa o fenômeno da chuva relacionado com os mitos guaranis, e na escola as professoras ensinam dentro dos padrões culturais dos livros. Então as crianças chegam em casa e dizem aos familiares que eles mentiram, ensinaram tudo errado, pois na escola a professora explicou diferente.

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Imagem 10. Eu e meus novos amiguinhos, os indiozinhos mbyas guaranis.

A merenda também é causa de divergência entre a escola e os pais, pois as crianças acostumadas com o espírito de coletividade, querem repartir com seus amiguinhos ou parentes aquilo que receberam na hora da merenda. Porém no pensamento das merendeiras isto não pode acontecer, ficando elas bravas com as crianças.

Com relação a alimentação, os mbyas utilizam mandioca, milho, feijão e também alimentos industriais. Se não tem muito tempo, fazem pequenos roçados para plantar e garantir a semente para o ano seguinte. Em agosto fazem um ritual na opy para purificar as sementes, para serem plantadas em setembro.

A casa de reza opy, no momento que fizemos a visita, estava sendo construída, por enquanto esta sendo utilizada uma pequena opy, que é de uma família, nela são celebrados batizados, casamentos e orações. Também na casa de reza, os noivos recebem orientações dos mais velhos sobre como viver a dois, conforme a cultura guarani. Depois tem que morar com a sogra de três a cinco anos, até a família da moça ter certeza de que não irão se separar.

Na opy, são levadas as pessoas doentes para consultar com o xamã, antes mesmo de irem a um médico ou hospital,  só a partir da indicação do guia espiritual é que procuram atendimento hospitalar ou ambulatorial. Caso contrário é curado com a medicina xamânica e com ervas medicinais. No entanto, na aldeia existe um posto de saúde, onde médico, dentista e enfermeira atendem três vezes por semana. Porém há discordância no pensamento do médico e dos mbyas, pois para o médico, uma criança não pode andar descalça, mas para os ameríndios é natural, faz parte da cultura deles. Em outro caso, o médico acha que uma criança esta anêmica e desnutrida, mas para os mbyas não.

As casas e a opy possuem suas portas direcionadas para o pôr do sol. As casas tradicionais são feitas de taquara barreadas nas laterais e o telhado é confeccionado com bambú e palha, estas moradias são reservadas aos mais velhos. Dizem que morando nessas, estão protegidos pelos Deuses. Já as moradias dos casais novos, o governo vem construindo as laterais de madeira tipo costaneira e o telhado com caibros e telha de barro.

O cacique Ariel nos explicou muitas coisas sobre a cultura guarani, inclusive a maneira que as meninas e os meninos são tratados assim que surgem os primeiros sinais biológicos da adolescência, onde passam a ser vistos não mais como crianças, quando passam a poder ter filhos e formar uma família, precisando saber as suas responsabilidades.

Iniciou contando-nos que quando ele era criança, notava que suas irmãs as vezes desapareciam e era proibido perguntar o que tinha acontecido a elas. E isto se dava devido ao primeiro ciclo mestrual, onde as mbyas fazem um resguardo de 15 dias e tomam banhos de ervas. Após, nas outras mestruações elas precisam se abster de carne, sal e frituras. Já na fase adulta, a mulher avisa ao marido que esta mestruada, por que neste dia ela não pode cozinhar, lavar roupas, plantar, etc., cabendo a ele as tarefas que antes eram dela. Pois aos homens na divisão do trabalho, cabe as funções de fazer esculturas em madeira, caçar, pescar, melar abelhas, etc, numa configuração diacrônica e sincrônica com os guaranis missioneiros.

E quando a mulher está grávida e o bebê vai nascer, o homem também descança. Dentro da barriga, o filho já sabe tudo o que acontece com a família e após o nascimento se for menino, o pai faz um arco-flecha e se for menina a mãe faz uma cestinha. O pai fica fora de casa três meses para vender artesanatos, o objeto  confeccionado irá transmitir à criança a figura do pai acalentando a saudade.

A criança revela o seu nome para o xamã através de sonho. Se ao chegar a idade dela entender o que significa, e notar que o seu nome é motivo de risos e chacotas, então vai novamente ao xamã e pede para ele trocar.

Em algumas aldeias guaranis (não o caso desta), ainda há o infanticídio, que é a morte por inanição das crianças que nascem deficiêntes ou gêmeas. Nesses casos, só a família fica a par do que está acontecendo, os pais e os avós; o resto da aldeia não. Os mbyas acreditam que esta criança poderá trazer complicações para a família. Acreditam eles que o motivo deste nascimento, foi porque o pai ou a mãe cometeram adultério. Na aldeia não existe cemitério, ele fica na cidade, porém pensam em construir um na aldeia, pois os mais velhos dizem que os mortos devem ficar num lugar com sombra, já que o cemitério na cidade tem muito sol.

A iniciação dos meninos acontece quando os pais notam a mudança na voz, então furam-lhe o lábio e enfiam uma palhinha fina, para a partir dali por motivo da dor, ficarem calados e ouvirem mais, principalmente os mais velhos e consequentemente aprenderem a cultura; fazer chimarrão para o pai, buscar lenha para a mãe e até mesmo para a futura sogra, pois esta é a forma de dizer a ela que estão apaixonados pela sua filha. Além disso os meninos tem que agradar também o sogro, então precisa contar boas piadas e também precisa ter ombros fortes, isto é sinal de força e resistência física.

Os guaranis são exogâmicos e muitas vezes é necessário os homens irem em outras aldeias para encontrar o seu par, as mulheres ficam na aldeia aguardando. Foi o caso do Ariel que veio do Salto do Jacuí para conhecer sua esposa aqui em São Miguel das Missões, onde é professora, e era filha do antigo cacique. O cacicado é herdado, porém quando o cacique faleceu, só tinha filhas mulheres, então o esposo da filha mais velha adquiriu o cacicado.

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Imagem 11. A trilha na mata e junto esta Basílio, músico mbya

Foi nesta trilha que o cacique Ariel nos deu a maior parte de sua entrevista, o passeio representou uma renovada nas energias, sem contar o conhecimento da cultura ameríndia que nos foi passada.

Fomos até o Rio Vermelho, pisamos sobre uma grande rocha de itacuru, pedra ferro, muito encontrada na região, pude percebê-la em vários lugares com formatos e tamanhos diversos, soltas ou enterradas no solo.

Desde cedo todos aprendem a ter respeito pela natureza, pois sabem que é dela que sai o remédio, alimento, sementes e a taquara para os artesanato. Buscam sempre a proximidade com os rios para possuirem uma boa água para beber, cozinhar, tomar banho e a agricultura.  A natureza é muito importante para eles, pois sabem que é ela que possibilita a sua subsistência.

Outro aspecto observado foi a questão do coletivo, que desde antes da chegada dos europeus jesuítas, os guaranis já possuiam esta característica, onde tudo é para o coletivo, apesar de eu ter notado que cada família tem o seu próprio galinheiro, a sua horta, produzem e vendem os seus próprios artesanatos, mas quando há excedentes, distribuem-se entre si. O kula, os alimentos não perecíveis, roupas, calçados que nós levamos a eles foram distribuído entre todos.

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Imagem 12 – Grupo de cantores Jero Dhi Guarani

É através da cosmologia que as sociedades demonstram a sua cultura, utilizando as artes para esta representação, como é o caso dos índios estudados, onde os meninos e meninas músicos através da dança e do canto, representam e divulgam a cultura dos mbyas guaranis. Na imagem 12, aparece a apresentação do grupo de cantores Jero Dhi, em frente à Casa de Cultura. Os cantos são na língua nativa guarani. Os meninos fazem um movimento com os pés e as meninas fazem outro, representando as águas, pois os guaranis são denominados “Povo das águas”.

O tekoa fica nas proximidades de um assentamento, onde o contato interétnico com os moradores locais: alemães, italianos e poloneses são de respeito e amizade.

Quando estávamos indo embora, o Ariel nos levou por um atalho, passamos por três casas e aprendemos com ele a dar boa tarde em guarani, Nhandekaarú ju! Tivemos o prazer de conhecer o ancião da aldeia, o Sr. Cantalício, e em guarani Kuaray Nhe´êry, 85 anos. Na cultura guarani o homem pode matar só quatro onças, mas por motivo de sobrevivência o Sr. Cantalício teve que matar a 5ª onça, pois estava no mato com a filha pequena sentada vendo ele cortar lenha. Para eles, se matar mais que quatro onças, o espírito do animal fica na volta deles.

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Imagem 13- O cacique Ariel e o Sr. Cantalício

O cacique disse que sabíamos fazer as perguntas, éramos diferentes dos turistas que iam no Sítio São Miguel Arcanjo, os quais faziam perguntas impróprias, só faltava perguntar se ele era um ET.

Explicou-nos a importância para os guaranis, da boa oratória, pronunciar palavras certas e belas, procurando não magoar e ser entendido por todos.