Categoria ‘Internet’ Antropologia

29
Nov

Simpósio indígena avaliou usos da internet em comunidades no Brasil

No último dia 26 de novembro, ocorreu, na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo, o encerramento do I Simpósio Indígena sobre Usos de Internet nas Comunidades Indígenas do Brasil, promovido pelo Núcleo de História Indígena e do Indigenismo USP, em parceria com o Laboratório da Imagem e Som em Antropologia da USP com o apoio da Rede de Cooperação Alternativa – RCA Brasil, da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP, da CAPES e da FAPESP.

Durante três dias, em plenárias que mesclaram apresentações de experiências de uso da internet com discussões entre os participantes, representantes de 16 povos indígenas discutiram os diferentes usos que têm feito da internet em suas comunidades. Nos debates, identificaram vários problemas comuns, a começar pelo número reduzido de comunidades indígenas que têm acesso a rede mundial de computadores. Equipamentos defasados, conexões lentas e intermitentes, falta de assistência técnica e dificuldade de acesso a programas de computadores foram algumas das dificuldades mapeadas pelo grupo.

Simpósio sobre o uso da internet nas aldeias indígenas
Ampliar o contato e a troca entre as comunidades indígenas, garantir que mais comunidades indígenas tenham acesso à internet, exigir do governo maior apoio às demandas indígenas por conexão e melhoria das instalações nas aldeias e a criação de uma rede das Redes, enquanto um espaço que aglutinaria todas as redes, sites e blogs indígenas hoje existentes, para melhorar o diálogo entre os povos indígenas, fortalecer a cultura e ser um espaço de cobrança de direitos são as principais propostas formuladas durante o simpósio. Ao término deste, os participantes elaboraram um documento, que é reproduzido a seguir.

Ata do 1º Simpósio Indígena sobre Usos da Internet no Brasil

As lideranças e indígenas, reunidas no I Simpósio Indígena sobre Usos de Internet
nas Comunidades Indígenas do Brasil durante os dias 24 a 26 de Novembro de 2010,
na sala da antiga biblioteca do Prédio de História e Geografia da FFLCH na USP
(Universidade de São Paulo) em São Paulo-SP, após amplos debates chegaram às
conclusões que seguem sobre o uso da Internet nas Comunidades Indígenas:

As dificuldades existentes:

– Dificuldade de Conexão: a antena GESAC que hoje se encontram nas aldeias
indígenas não tem suprido a necessidade de conexão nas aldeias, tendo inclusive
falhado constantemente em algumas Comunidades. São poucos os pontos de conexão
nas aldeias Indígenas. A velocidade disponibilizada não permite downloads, upload;
em muitas aldeias onde foi prometida a instalação de conexão ainda não foi instalada.
– Falta de equipamentos: os equipamentos que chegam às aldeias são muitas vezes
velhos sem funcionar, os programas não são de fácil uso, equipamentos e software
ultrapassados; é preciso tornar mais simples (desburocratizar) o processo aquisição de
kits de Infocentros.
– Falta de manutenção: é necessária a formação de uma equipe indígena para
manutenção dos computadores nas comunidades indígenas;
– falta de formação de equipe técnica nos pontos de acesso (equipe de
multiplicadores): é necessária a formação de indígenas multiplicadores do uso das
máquinas.
– falta de comunicação entre os indígenas que usam a internet

Encaminhamentos:

Diante de tudo que foi levantado e discutido pelos parentes presentes, ficou acordado
a criação de uma Rede das Redes, um espaço que aglutinaria todas as redes, sites e
blogs indígenas hoje existentes, para melhorar o diálogo entre os povos indígenas,
fortalecer a cultura e ser um espaço de cobrança de nossos direitos.
Ficou claro que é urgente que mais aldeias sejam conectadas uma vez que é uma
necessidade para uma maior comunicação com o mundo externo às aldeias e entre
nós mesmos. A internet nas aldeias é uma ferramenta para buscar melhorias para
as comunidades indígenas, daí a URGÊNCIA em solucionar os vários problemas que
existem nas Aldeias como a conexão (muito lenta isso quando funciona), a falta de
Computadores (muitos estão ultrapassados e sucateados) e demais questões acima
citadas.
É necessário que tenham mais encontros como estes, pois é de suma importância
discutir o tema da Internet nas aldeias, melhorias das condições do uso desta internet
e o fortalecimento da Rede das Redes que chamados Rede Digital Cultura Indígena.
Por fim ficou a cargo da Rede Índios on Line e Web Brasil Indígena nas pessoas de
Graciela Guarani, Alex Pankararu, Potyra Tê Tupinambá e Anapuáka Pataxó Hãhãhãe
dar o suporte para os povos que ainda não tenham seus sites e blogs e também na
criação do espaço virtual da Rede Digital Cultura Indígena.

01. Josinei Aniká dos Santos [Karipuna]
02. Maurício Yekuana [Yekuana]
03. Elizeu Nascimento Pedrosa [Piratapuia]
04. Raimundo Benjamim Baniwa [Baniwa]
05. Daniel Baniwa [Baniwa]
06. Jean Hundu Arara Jaminawa [Jaminawa]
07. Almir Narayamoga Suruí [Suruí]
08. Chicoepab Suruí [Suruí]
09. Takumã Kuikuro [Kuikuro]
10. Kumaré Txicão [Ikpeng]
11. Karané Txicão [Ikpeng]
12. Devanildo Ramires [Guarani Kayowá]
13. Elivelton de Souza [Guarani Kayowá]
14. Paulo Gomes Guajajara [Guajajara]
15. Edivan dos Santos Guajajara [Guajajara]
16. Járdilla Simões Jerônimo [Tapeba]
17. Alex Pankararu [Pankararu]
18. Graciela Guarani [Guarani Kayowá]
19. Potyra Tê Tupinambá [Tupinambá]
20. Anapuáká Muniz Tupinambá Hã-hã-hãe [Tupinambá Hã-hã-hãe]
21. Lucas Benite Xunu-Miri [Guarani Mbya]
22. Nélida Rete Venega [Guarani Mbya]
23. Ataíde Vilharve [Guarani Mbya]
24. Jonesvan Xakriabá [Xakriabá]

Fonte: www.usp.br/nhii/simposio

30
Sep

Tecnologia – Usando a internet, índios combatem desmatamento na Amazônia

Para os índios Suruí, que vivem na reserva indígena Sete de Setembro, na divisa entre os Estados de Rondônia e Acre, levar uma vida tradicional na floresta não é incongruente com as modernas tecnologias – ao contrário, uma fortalece a outra.

“Eu acho que nossa aliança com a internet é muito importante porque facilita e possibilita que a comunicação fortaleça politicamente nosso povo”, diz o líder indígena Almir Surui, de 35 anos.

“O meu povo pode falar da ameaça da floresta, do desenvolvimento da floresta, da valorização cultural do povo Suruí.”

Por iniciativa de Almir, a relação que os Suruí têm desenvolvido com a internet, esta “ferramenta dos brancos”, é uma inovadora tentativa de fazer com que o contato reforce – ao invés de corromper – a cultura e o modo de vida nativos.

A ideia de usar a internet para valorizar sua cultura e combater o desmatamento nasceu em 2007, quando Almir teve seu primeiro contato com o Google Earth e fez o que todo mundo faz: procurou ver sua casa do satélite.

A vista aérea da reserva Sete de Setembro, um polígono verde de 248 mil hectares no centro de um entorno quase totalmente desmatado, representado em cor marrom, deixou o líder chocado.

Mas, ao mesmo tempo, ele percebeu que a mesma internet que expunha os problemas também poderia representar uma solução.

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Plano é instalar internet na aldeia de Lapetanha até o fim deste ano

“Eu disse ao Vasco (van Roosmalen, da ONG Equipe de Conservação da Amazônia, ACT-Brasil, parceira dos indígenas em diversos projetos) que queria um encontro com o Google, e ele achava que era impossível”, conta.

“Insisti e consegui uma reunião de 30 minutos. Passamos três horas, de tão interessados que eles ficaram.”

Menina dos olhos

Hoje, a parceria do Google Outreach – o braço social do Google – com os Suruí é uma espécie de menina dos olhos da companhia.

Ao saber desta reportagem da BBC Brasil, a diretora mundial do projeto, Rebecca Moore, fez questão de colaborar, por meio de uma videoconferência da sede da empresa em San Francisco.

“Pelo chefe Almir, tudo”, brincou Rebecca, antes do início da entrevista. Ela diz que se convenceu pela descrição “categórica e potente” que Almir fez da realidade amazônica.

“Ouvimos histórias sobre as ameaças representadas por madeireiras ilegais e mineradoras, sobre pessoas assassinadas, sobre o fato de existir inclusive uma recompensa pela cabeça do próprio Almir, por liderar seu povo e resistir às madeireiras”, contou.

“Ficou claro que ele tem uma ideia muito sofisticada de como a tecnologia moderna pode ajudar os povos tradicionais a se fortalecer, fortalecer sua cultura, proteger e preservar suas terras, e preencher uma lacuna entre modos tradicionais e modernos.”

Suruí online

O primeiro passo da parceria entre a gigante de internet e a associação indígena Metareilá, firmado em 2008, foi a disponibilização do chamado “mapa cultural” dos Suruí, que antes só existia em papel, no Google Earth.

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Acesso online a mapa cultural valoriza cultura dos índios Suruí, diz Almir

Feito a partir de uma metodologia que a ACT-Brasil cedeu aos indígenas, o mapa mostra, por exemplo, os locais onde se desenrolaram batalhas históricas dos Suruí contra outras tribos ou contra as expedições não-indígenas.

Em outro clique, o usuário fica sabendo que, para os Suruí, o canto do tucano pressagia as más notícias, e que as penas do animal são utilizadas por guerreiros durante a celebração do Mapimaim, em homenagem à criação do mundo.

Como parte da parceria, a empresa providenciou treinamento de informática para cerca de 20 indígenas na sede da associação Metareilá, em Cacoal, onde fica a reserva.

O gerente de produtos da empresa, Marcelo Quintella, um dos que providenciaram o treinamento na ocasião, diz que se surpreendeu com o nível de familiaridade de muitos jovens indígenas com as novas tecnologias.

“Metade nunca tinha mexido em um mouse. Mas, dos outros dez, uns cinco sabiam usar o computador – não eram usuários diários de internet, mas sabiam – e outros cinco tinham até e-mail e (perfil no) Orkut”, contou.

Combate ao desmatamento

Agora, os Suruí querem embarcar no mais ambicioso objetivo da “parceria”, como diz Almir, com a internet: o combate ao desmatamento da reserva Sete de Setembro, em tempo real.

Eles aguardam a chegada dos primeiros aparelhos smartphones equipados com o sistema operacional Android, da Google, que lhes permitirá tirar fotografar imagens do desmatamento em tempo real, postar na internet e enviar para o mundo e as autoridades competentes.

“Não é somente eles dizendo que existe (o desmatamento), é todo mundo vendo que existe. O poder de convencimento muda”, avalia Quintella.

A aldeia de Lapetanha, a mais próxima de Cacoal, a 500 km de Porto Velho, ainda não tem internet.

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Foto aérea do Google Earth mostra o ‘polígono verde’ dos índios Suruí

Mas os dois computadores na pequena sala que funciona como ponto de cultura servem para que os jovens indígenas que estudam na escola da aldeia comecem desde cedo a se interessar pela tecnologia e pelas possibilidades de acesso à informação que ela abre.

Almir diz que os planos são ter a rede por meio de uma antena a ser instalada até o fim do ano. Isto pouparia o trabalho de ir até Cacoal para acessar a internet e facilitaria a comunicação com outras partes do mundo – essa que ele diz “fortalecer politicamente” os Suruí.

A “frase da vez” em Lapetanha é que os Suruí estão “trocando o arco-e-flecha pelo laptop” para combater o desmatamento.

Mas Almir, chefe do clã Gamebey, responsável por tratar dos assuntos ligados à guerra, à diplomacia e ao meio ambiente entre os Suruí, diz que as novas “armas” não invalidam as antigas.

“Nossos arcos e flechas estão guardados em casa, cada um tem seu arco e flecha guardado em casa. Mas, ao mesmo tempo, a gente está usando notebooks”, ele diz, e para, tirando um pequeno telefone do bolso: “iPhone…”

“Hoje essas são realmente nossas ferramentas de diálogo para construir um mundo melhor.”

*O repórter da BBC Brasil Pablo Uchoa saiu de Londres para passar três dias com a tribo dos Suruí, os donos da reserva Sete de Setembro, na divisa de Rondônia com o Mato Grosso.

A viagem faz parte da série Clique SuperPotência, que investiga o impacto da internet.

Fonte: www.bbc.co.uk