Categoria ‘Marcel Mauss’ Antropologia

30
Jan

A equipe Seridó do Projeto Rondon, UFPel e UFMG em São Fernando/RN

Por Cátia Simone da Silva
Discente Bacharelado em Antropologia/UFPel

As duas equipes das Universidades Federais de Pelotas e Minas Gerais, que compõem a equipe Seridó do Projeto Rondon 2011 estão desenvolvendo várias oficinas com os moradores das zonas urbana e rural do município de São Fernando, os rondonistas também estão aprendendo muito com a população e na troca recíproca através do intercâmbio está acontecendo a integração com a comunidade local.

Os estudantes e profissionais da área de antropologia reconhecem claramente o estudo do francês Marcel Mauss, que em seu célebre texto “Ensaio sobre a Dádiva” (Mauss, 2003), estabelecia que as sociedades estavam imersas na tríplice obrigação de dar, receber e devolver, e podemos observar que esta regra primordial procede até os dias de hoje, no entanto, para Alain Caillé antes mesmo de haver a troca, existe o paradigma do dom, ou seja, ele afirma que antes de produzir e trocar bens é preciso começar fazendo um acordo mútuo, um reconhecimento primeiro incondicional, “o que importa em primeiro lugar é construir o laço social, que o laço é mais importante que o bem, eis o que o dom afirma”, (Caillé, 2002) e é o que está acontecendo nesse projeto, onde os rondonistas estão prontos a auxiliar e a comunidade está participando e também auxiliando-os.

Na chegada dia 23/01/2011 foram recepcionados com a banda filarmônica na Praça José Josias Fernandes no centro de São Fernando-RN, pelo prefeito Genilson Maia, outras autoridades e a população são-fernandense. Há meses o prefeito vem providenciando toda uma infraestrutura para receber os rondonistas e  a equipe Seridó também vinha preparando-se para obter um bom desenvolvimento das atividades.

Entre as várias atividades aconteceu a Oficina de incentivo ao uso da biblioteca e produção de texto
Incentivo a leitura

Professores de São Fernando uniram-se aos próprios alunos e, em conjunto com os rondonistas, desenvolveram mais novas formas dinâmicas de trabalhar o incentivo à leitura e à escrita numa atividade que despertou a criatividade de crianças, jovens e adultos, buscando criar, contar ou ré-contar com alterações estórias famosas ou da região do Seridó.

Dentre as diversas atividades na cidade, sábado, 29, ocorreu durante todo o dia: na quadra poliesportiva da cidade jogos de futsal na parte da manhã e jogos de vôlei e futsal na parte da tarde.

Sábado esportivo

Aproximadamente 70 crianças e adolescentes participaram dos jogos. Na foto acima, uma parte da turma da manhã, que foi dividida pela faixa etária. Na primeira etapa, só crianças de até 10 anos jogaram e foram divididos em três times. Na segunda etapa, a quadra foi cedida aos mais velhos. Jovens de até 16 anos puderam participar. Novamente, outros três times foram formados.

Na parte da tarde, quatro times de vôlei foram formados, mesclando garotos e garotas de todas as idades. Depois de alguns jogos, de forma a finalizar as atividades, a quadra foi novamente cedida para o esporte  da paixão nacional, o futebol.
Texto: Leandro Ribeiro “Peixe”

Amanhã começará a Oficina de Associativismo, cooperativismo e empreendedorismo
Produtore rurais

É o fórum dos produtores rurais, que iniciará segunda-feira, 31/01, 19h na comunidade Ramada!
O fórum tem como objetivo discutir métodos simples, baratos e eficientes para melhorar a produtividade do leite e queijo, bem como tratar da saúde da mulher e do homem do campo. Visa também abordar temas como associativismo, cooperativismo e direitos humanos.
Texto: Erika Kelmer (UFMG) e Marcos Ernani (UFPel)

Também está acontecendo aulas de informática  entre outras atividades, e estão sendo feitas entrevistas com as bordadeiras para a confecção de um blog, onde irão divulgar e vender os seus bordados.
Bordadeiras Seridó

Para conhecer um pouco do município de São Fernando e o trabalho dos rondonistas visite o site: www.saofernandoprojetorondon.blogspot.com

Referencial Bibliográfico:

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. In Sociologia e antropologia. São Paulo: Editora Cosac e Naify, 2003.
CAILLÉ, Alain. Antropologia do dom: o terceiro paradigma. Petrópolis, Rio de janeiro: Vozes, 2002.

8
Jan

Algumas considerações sobre o novo século

Alain Caillé*, professor de sociologia na universidade Paris-Ouest-La Défense e um dos fundadores da Revue du M.A.U.S.S. (Movimento anti-utilitarista nas ciências sociais).

Em 1797, Thomas Paine, o principal defensor e teórico dos direitos do homem, dedica ao Diretório uma sátira cuja argumentação continua mais atual que nunca. Questionando-se se “o estado de sociedade… aumentou ou diminuiu a felicidade da raça humana em geral”, ele conclui que a questão política primeira é saber como tornar a civilização preferível ao estado de natureza aos olhos da maior parte dos seres humanos. Quem pode duvidar que esta também será a questão primeira do século XXI: como evitar que a parte da humanidade tornada absolutamente pobre enquanto a outra parte será sempre mais rica, não prefira sistematicamente o “estado de natureza”, ou seja, a guerra de todos contra todos, ao estado de sociedade?

Além das múltiplas respostas particulares possíveis a este desafio, é importante compreender o problema assim colocado em toda sua generalidade. Ele reside, provavelmente, no fato que os fundamentos de nossa concepção herdada da democracia se revelam cada vez mais inadequados ao estado do mundo globalizado. Estes fundamentos utilitaristas se organizam à partir da questão: “Para que isso (me) serve?”. Desde então, a democracia é vista como o fruto de uma livre associação entre indivíduos mutuamente indiferentes, todos buscando maximizar sua vantagem individual. O objetivo é a conquista da maior felicidade para a maioria, e o meio é o crescimento econômico.

Esta interpretação utilitarista da democracia traz três sérios problemas:

1) À medida que o ideal democrático se mundializa, ele torna mais e mais insuportáveis a desigualdade e a assimetria entre os antigos dominantes ocidentais – que são, muitas vezes, os antigos colonizadores – e os outros países, nações, culturas ou civilizações. Sem um reconhecimento da igual dignidade de todos os povos e todas as culturas, sem dúvida mais fácil falar que fazer, não se evitará a guerra de todos contra todos.

2) A aceitação da democracia de mercado foi largamente condicionada por um crescimento econômico sem precedentes que oferecia à todos a perspectiva de uma mobilidade social ascendente. Ora, no Ocidente as molas impulsoras deste grande crescimento são bastante quebradiças. A temível questão será saber se o ideal regulador democrático poderá seguir perene face a um crescimento fraco ou quase nulo.

3) Enfim, todo o mundo vê perfeitamente bem que lá onde a dinâmica do crescimento segue forte, nos BRIC (acrônimo para Brasil, Rússia, Índia e China) e nos países emergentes, nada garante que esta será fator de uma democratização efetiva e perene. E, sobretudo, tudo leva à crer que esta dinâmica apenas será possível por um tempo relativamente breve, ao preço e em razão de uma degradação dramática e irreversível da ecosfera. Sabe-se que seriam necessários muitos planetas para tornar possível a universalização do padrão de vida ocidental.

Tudo isto se resume em uma questão dramaticamente simples: a esperança utilitarista nutrida pelo Ocidente durante séculos terá sido a da superação do conflito entre os homens através do crescimento da prosperidade material. Um tal crescimento sem limites torna-se cada vez mais problemático: saberíamos, na ausência do crescimento infinito, encontrar os meios para viver juntos, democraticamente, uma vida digna, sem nos massacrar uns aos outros?

O que poderia então significar o projeto de encontrar na democracia fundamentos não-utilitaristas, anti-utilitaristas ou supra-anti-utilitaristas? Em Ensaio sobre a Dádiva (1924), Marcel Mauss estabelece que as sociedades arcaicas não se baseavam, de forma alguma, no mercado, na troca, na compra, na venda, no contrato, mas sobre aquilo que ele chama a tríplice obrigação de dar, receber e devolver. Sobre a obrigação, para explicar de uma outra forma, de magnificamente rivalizar em generosidade para ser reconhecido como plenamente humano. O que Marcel Mauss expõe é, então, uma concepção política e recíproca do dom. O dom – ou melhor, o desafio do dom – é este operador paradoxal que permite aos guerreiros transformar os inimigos em aliados, de passar da guerra à paz, e logo, complementarmente, da morte e da esterilidade à vida e à criatividade. Se o dom tem esta vertente pacificadora, é porque simboliza o reconhecimento de que os homens em conflito se dão um valor humano recíproco. Ele afirma que antes de produzir e trocar bens materiais úteis, é preciso começar fazendo a paz, ao acordar-se mutuamente um reconhecimento primeiro incondicional.

É isto o que uma ideologia política de um novo tipo, que é possível identificar provisoriamente sob o rótulo de “convivialismo”, deve aprender a fazer. Liberalismo, socialismo ou comunismo terão sido modalidades de uma filosofia política utilitarista, fazendo do crescimento indefinido da prosperidade material a resposta por excelência à aspiração democrática. O convivialismo traz a questão de saber como “viver bem juntos” e como dar vida à democracia mesmo que não haja um crescimento econômico contínuo. Ele se choca diretamente, então, com a questão crucial de nosso tempo, que é a dos meios de lutar contra a desmesura, a arrogância: como a humanidade pode aprender a se auto-limitar? O princípio base do convivialismo e da luta contra a ilimitação consiste na afirmação da “comum humanidade” e da “comum socialidade” de todos os seres humanos. Levar à sério este princípio implica na subordinação de toda medida política em respeito prioritário à dignidade humana, material e moral. O princípio de comum humanidade tem dois correlatos necessários: evitar que alguns recaiam em um estado de sub-humanidade; e que outros não aspirem a um estado de supra-humanidade.

Concretamente, o primeiro correlato se reúne à proposição desenvolvida por Thomas Paine em sua sátira. O único meio, escreveu ele, de converter a imensa maioria dos humanos à certeza de que a civilização é preferível ao estado de natureza é lhes concedendo, sem condições, um rendimento mínimo que os permita escapar da miséria. Generalizemos: em uma sociedade convivial à edificar, a fonte primeira da legitimidade dos Estados e dos governos residirá em sua capacidade de assegurar efetivamente aos cidadãos as condições materiais para sua existência de base, proporcionais à situação geral do país ou da região, quaisquer que sejam sua raça, sua religião ou suas crenças.

Simetricamente, a primeira medida a tomar para lutar contra o espírito de desmesura que se abateu sobre o mundo nestes últimos trinta anos é colocar que nenhum ser humano está autorizado a gozar de riquezas potencialmente infinitas. Este propósito não é, em si, portador de nenhum igualitarismo radical ou dogmático. Caberá ao debate democrático determinar quais as margens de riqueza e de rendimento desejáveis e aceitáveis. Porém, para se convencer que existe uma margem basta constatar que a diferença de rendimento entre os cem empresários americanos mais bem pagos e seus empregados de base foi multiplicada por 25 desde 1970. Imaginemos, então, que nos países ocidentais, o retorno mais rápido possível às normas de igualdade-desigualdade que ainda prevaleciam nos anos 70 deverá se tornar uma prioridade absoluta.

Apenas a afirmação do princípio incondicional de comum humanidade e a instituição conjunta de um rendimento mínimo e um rendimento máximo pode nos dar verdadeiras condições de evitar a dupla catástrofe que nos espreita: a de uma degradação dramática e irreversível do ambiente natural e a do desencadeamento de uma guerra de todos contra todos.

Fonte: www.jornaldomauss.org

12
Dec

UMA ANTROPOLOGIA DAS COISAS: ETNOGRAFIA E MÉTODO

O presente ensaio bibliográfico tem como base o livro que resultou de uma série de discussões promovidas por um grupo de estudantes de doutorado do Departamento de Antropologia Social da Universidade de Cambridge, no final da década de 1990. Não obstante a diversidade dos contextos etnográficos, todos os autores partilham o desafio de reformular a relação entre o método etnográfico e a teoria antropológica no que concerne ao estudo daquilo que se convencionou chamar de “cultura  material”. Donde o título “Pensando Mediante as Coisas”, além de denotar uma questão antropológica a respeito do que os informantes fazem e de como os autores poderiam desenvolver versões sobre os modos a partir dos quais os mesmos apreendem e concebem as coisas, também compreenda o caráter principal dos encontros que motivaram a redação deste livro.

Clique aqui para visualizar o trabalho na íntegra.

Fonte: www.seer.ufrgs.br

25
Aug

Marcel Mauss: Ensaio sobre a Dádiva

Marcel Mauss: Ensaio sobre a Dádiva (é publicado logo após os Argonautas do Pacífico Ocidental, de Malinowski, que ao contrário de Mauss pôde ir à campo).
Princípio Durkheimiano de social é aplicado a mercadoria à construção do eu e do corpo: indivíduo depende da sociedade – descobertas de atos coletivos sob bases individuais.
Tese central: A dádiva é fundamento de toda sociabilidade e comunicação humanas, assim como sua presença e sua diferente institucionalização em várias sociedades analisadas por Mauss, capitalistas e não capitalistas. Ora, o argumento central do Ensaio é de que a dádiva produz a aliança, tanto as alianças matrimoniais como as políticas (trocas entre chefes ou diferentes camadas sociais), religiosas (como nos sacrifícios, entendidos como um modo de relacionamento com os deuses), econômicas, jurídicas e diplomáticas (incluindo-se aqui as relações pessoais de hospitalidade).
Relativiza ao afirmar que o comércio não é igualmente universal – trata-se de um evolucionista que começa a ter um tom crítico quanto ao próprio evolucionismo. Crítica de Lévi-Strauss: O conceito de Mauss é muito específico para a abrangência em que este é utilizado (comparação).
Introdução: Da dádiva e, em particular, da obrigação de retribuir presentes:
” Um presente dado espera sempre um presente de volta”
Enfoque no caráter voluntário, por assim dizer, aparentemente livre e gratuito, e no entanto obrigatório e interessado, dessas prestações. Princípios geradores desta forma necessária de troca: “Que força existe, na coisa dada, que faz que o donatário à retribua”. Uma arqueologia das transações humanas em outras sociedades. Existe um mercado econômico, mas o regime de troca é diferentes do nosso: moral e economia que regem essas transações.
Método de comparação preciso – áreas de estudo: Polinésia, Melanésia, Noroeste americano, e alguns grandes direitos. Renúncia a comparação constantes, restringindo o objeto de estudo.
Estudo dos mesmos Polinésios a quem classificavam como detentores de uma Economia Natural. Não existe a simples troca de bens entre indivíduos. Em primeiro lugar pois não são indivíduos, mas coletividades que se obrigam mutuamente – pessoas morais: clãs, tribos, famílias. Além disso, o objeto de troca não é, exclusivamente, bens economicamente úteis, podendo ser amabilidades, banquetes, ritos, mulheres, crianças, danas, festas: Circulação é um termo de um contrato bem mais geral e permanente (e o mercado apenas um dos momentos): Sistemas de Prestações Totais. Tipo mais puro nas tribos australianas ou norte-americanas: Potlatch: “Nutrir”, “Consumir” – assmbléia solene da tribo, uma perpétua festa realizada no inverno em que, segundo as confrarias hierárquicas, uma trama inextricável de ritos, prestação jurídica, econômica e determinações de cargos políticos se dá. Importantes: O princípio da rivalidade e do antagonismos que domina essas práticas. Briga entre os chefes pela hierarquia que beneficiará todo o seu clã: prestações totais de tipo agonístico. Outros casos, como na Polinésia, em que estudaremos a razão que obriga a restribuição da coisa dada.
I – As dádivas trocadas e a obrigação de retribuí-las (Polinésia)
1. Prestação total, bens uterinos contra bens masculinos (Samoa)
Sistema de oferendas contratuais em Samoa, muito além do casamento, acompanhando acontecimentos como o nascimento do filho, a circuncisão, doença, puberdade da moça, ritos funerários, comércio. Dois elementos essenciais no potlatch:
a) o da honra, prestígio, mana que a riqueza confere;
b) obrigação absoluta de retribuição sob pena de perder esse mana, autoridade, talismã, fonte de riqueza que é a própria autoridade. Ex: O sacrifício dos vínculos naturais do nascimento de uma criança facilita a sistemática de circulação entre propriedades indígenas e estrangeiras (trocas de bens entre as famílias uterinas e masculina). Falta apenas a rivalidade, o combate, a destruição para haver potlatch Oloa: objetos, bens móveis do marido Tonga: propriedade, tudo o que pode ser trocado, ou como objeto de compensação: uma propriedade-talismã (definição ampliada).
2. Do espírito da coisa dada (Maori)
Sistema de trocas: dar presentes que devem ser ulteriormente trocados ou retribuídos; trocadas por tribos ou famílias amigas sem estipulações. Hau: espírito da coisa dada – idéia dominante do direito maori: ” Os taonga e todas as propriedades rigorosamente ditas pessoais têm um hau, um poder espiritual. Você me dá um, eu o dou a um terceiro; este me retribui um outro, porque ele é movido pelo hau de minha dádiva; e sou obrigado a dar-lhe essa coisa, porque devo devolver-lhe o que em realidade é o produto do hau do seu toanga”. O hau acompanha todo detentor, todo indivíduo ao qual o taonga é simplesmente transmitido: hau que quer voltar ao lugar de seu nascimento. A) Entender a natureza do vínculo jurídico criado pela transmissão de alguma coisa, que detém uma própria alma: dar alguma coisa a alguém é dar algo de si; b) obrigação de retribuir: uma vez que recebe-se uma parte do outro, o que recebeu vê-se obrigado à dar uma parte de si, não apenas porque seria ilícito não faze-lo, mas também porque a coisa dada exerce uma grande influencia mágica sobre quem quer que as possua.
3. Outros Temas: a obrigação de dar, a obrigação de receber
Não se resume somente a obrigação de retribuir, mas também à obrigação de dar, por um lado, e de receber, pelo outro. Estes 3 atos geram a explicação da forma de contrato entre os clãs polinésios. Recusar dar é tido como negligenciar convidar, e recusar receber equivale a declarar guerra (recusar aliança, comunhão). Há assim uma série de direitos e deveres de dar e receber. Tudo é matéria de transmissão e de prestação de contas: tudo vai e vem como se houvesse uma constate troca de uma matéria espiritual que compreendesse coisas e homens, entre clãs e indivíduos, repartidos entre as funções os sexos e as gerações.
4. Observação – O presente dado aos homens e o presente dado às divindades:
Presente dado aos homens em vista das divindades e da natureza: as trocas entre homens incitam os espíritos dos mortos, as divindades, as coisas, os animais, a natureza a serem “generosos para com eles”. Os homens podem ser tidos como encarnações xamanísticas, assim a troca entre eles e os contratos arrasta consigo todo um turbilhão não apenas de homens e de coisas, mas também de seres sagrados à eles associados. Tentativa de dar maior abrangência à esta instituição de troca-dádiva, não restrita apenas à Polinésia; essa interpretação vale para vários outros grupos de sociedades.
II – Extensão desse sistema. Liberdade, honra, moeda.
1. Regras de generosidade. Andamam
Finalidade Moral: produzir sentimento de amizade entre as partes envolvidas – rivalidade na generosidade, buscando superar o outro. Trata-se essencialmente de misturas, das almas nas coisas e as coisas nas almas; vidas: mistura é dada pelo contrato e troca
2. Princípios, razões, e intensidade das trocas e de dádivas (Melanésia)
Conservaram e desenvolveram o sistema de trocas na Melanésia, aparecendo com mais clareza a noção de moeda. Kula: Sistema de comércio intertribal, uma espécie de grande potlatch; de ordem nobre, restrito aos chefes (círculo no qual transitam as coisas). Muito diferenciado das trocas simples econômicas de mercadorias úteis (gimwali): dar e receber, os donatários de um dia sendo os doadores do outro (podem ocorrer na mesma festa) – pode-se aproveitar o kula de menor envergadura para a troca de carregamentos. Há uma ritualística durante a troca em que o doador simula uma modéstia exagerada para demonstrar certa liberalidade, liberdade, autonomia e grandeza ao ato – mas são no fundo mecanismos de obrigação.
Objeto essencial dessas trocas-doações: vaygu’a – dois tipos: a) mwali: braceletes de conchas talhada e polida, usados em grandes ocasiões; b) soulava: Colares confeccionados por hábeis artesãos com o nácar da ostra-espinhosa vermelha: usados solenemente pelas mulheres, e excepcionalmente pelos homens (em caso de agonia). Os braceletes são transmitidos de Oeste a Leste, e os colares ao contrário. Devem ser guardados, e as comunidades se orgulham de possuí-los. Uma propriedade que se tem sobre o presente recebido, mas que muito difere das categorias jurídicas, morais, e econômicas do ocidente.
Possui também uma face mítica, religiosa e mágica:vaygu’a possuem cada um suas idiossincrasias, denotando-lhes um caráter sagrado. Há a invocação de animais durante o ritual, seja de crocodilos, ou de aves: sociologicamente, é a mistura dos valores, das coisas dos contratos, dos homens.
Kula: Ponto culminante da vida econômica e civil, do sistema de prestações e contraprestações:
a) Kula dá origem ao gimwali, trocas prosaicas que não necessariamente precisam ocorrer entre parceiros;
b) entre os parceiros do Kula passa uma cadeia ininterrupta de presentes suplementares, dados, retribuídos e também um comércio obrigatório. A aceitação de uma oferenda significa a disponibilidade para entrar no jogo, quando não para permanecer. Durante todo o tempo da troca, intervém atividades regularmente retribuídas, como a troca de mulheres e hospitalidade.
Kula intertribal, caso exagerado, mais solene e dramático, de um sistema mais geral, em que a tribo passa a se relacionar com outras, transcende suas fronteiras, sendo um légitimo potlatch. O sistema de dádivas permeia toda a vida econômica e moral dos nativos. Existem relações análogas ao Kula. Não parece que a troca seja realmente livre.
Este princípio é relativamente encontrado entre demais tribos de outros pontos da Melanésia: Melanésios e Papua Nova Guiné tem o potlatch. Há uma vida econômica que ultrapassa as fronterias das ilhas e dialetos, e um comércio considerável.
Problema: Incapacidade de abstrair e dividir seus conceitos econômicos e jurídicos (tal como não conseguiu fazer o direito germânico), os próprios indivíduos não sabem diferenciar-se: compra e venda, fazer e tomar empréstimo são expressadas pelas mesmas palavras: atos antitéticos são expressos pela mesma palavra. Há uma parte da humanidade que troca coisas consideráveis sob outras formas e por razões diferentes das que conhecemos.
3. Noroeste americano
Indígenas do noroeste americano apresentam as mesmas instituições, com a diferença de que nelas sai ainda mais radicais e acentuadas. Tal regime, dada a extensão, Mauss presume que este regime de trocas foi o de grande parte da humanidade durante uma fase de transição, e que subsiste em uma série de povos além dos quais foram descritos: “Esse princípio de troca-dádiva deve ter sido o das sociedade que ultrapassaram a fase da “prestação total” (de clã a clã e de família a família), mas que ainda não chegaram ao contrato individual puro, ao mercado onde circula dinheiro, à venda propriamente dita e, sobretudo, à noção de preço calculado em moeda pesada e reconhecida”.
III. Sobrevivências desses princípios nos direitos antigos e nas economias antigas
As etnografias supracitadas permitem a compreensão de uma evolução social: “instituições desse tipo forneceram realmente transições para nossas formas”, de direito e economia. Podem servir para explicar historicamente nossa própria sociedade. Nosso direito e economia se originaram de instituições semelhantes à essas. Há as distinções jurídicas de direito real e pessoal, bem como de obrigações e dádivas.
1. Direito pessoal e direito real (direito romano muito antigo)
O vínculo do direito provém tanto das coisas como dos homens.: tal vínculo é ainda permeado por representações religiosas. Além deste vínculo religioso, há o do formalismo jurídico, palavras e gestos. As coisas não são seres inertes, mas fazem parte da posse da família. Há a figura do contrato. A res, que denota posse, deve ter sido, anteriormente, como a palavra sânscrito rah, que denota dádiva, troca. Há, assim, a presença, em algum momento histórico, de sistemas semelhantes aos descritos na América e Oceania nos sistemas jurídicos indu-europeus.
2. Direito Hindu Clássico (teoria da Dádiva)
Lei da dádiva aqui descrita só se aplica aos brâmanes, havia um sistema de potlatch em todo o país, em dois grandes e numerosos grupos, que desapareceu após séculos de existência. A coisa dada produz sua recompensa nessa vida e em outra (ex: terras doadas que produzem o ganho a outrem faz crescer nossos ganhos neste mundo e no outro). Há, portanto, um fundo teológico-místico nas doações. É da natureza do alimento ser compartilhado, não dividi-lo é matar a sua essência (a riqueza é produzida para ser dada). Os princípios do direito bramânico nos lembram alguns princípios polinésios, melanésios e americanos: a maneira de receber a dádiva é análoga. (a casta dos brâmanes, que vive de dádiva, pretende recusa-las, transgredindo e aceitando as que foram oferecidas espontaneamente, anotando em listas as pessoas que doam, criando um vínculo entre doador e donatário: um esta demasiadamente ligado ao outro).
Dádiva: o que se deve fazer, deve receber, e no entanto é perigoso tomar.
3. Direito Germânico (a caução e a dádiva)
A civilização germânica existiu por muito tempo sem mercados, tendo ao extremo todo o sistema do potlatch, mas sobretudo o sistema das dádivas: a vida fora do interior, seja dos clãs ou da família, era promovida pelo sistema das dádivas. A doação de presentes aos recém-casados é um exemplo deste sistema. A necessidade de caução em todos os tipos de contratos germânicos é outro exemplo, cuja função era promover o vínculo entre as partes. Há, por outro lado, a dádiva, o presente que pode ser transformado em veneno –muito recorrente ao folclore germânico.
Direito Céltico: também conheceu tais instituições
Direito Chinês: Conserva uma marcante característica dos tempos arcaicos: o vínculo indissolúvel entre a coisa com seu proprietário inicial. Mesmo que ele a venda, sempre poderá “chorar seu bem”, uma espécie de direito de sucessão sobre a coisa.
IV – Conclusão:
1. Conclusão de Moral
É possível estender essas observações a nossas sociedades. Ainda hoje existe uma certa reciprocidade, como na troca de presentes e convites, em que ocorre a proibição moral do “ficar em dívida”. As coisas vendidas tem também alguma alma, sendo seguidas pelo antigo proprietário. Há, além disso, o reaparecimento da dádiva no direito, em especial nas políticas governamentais de programas intervencionistas.
O sistema de prestações totais (clã-clã) é o mais antigo sistema de direito e economia, e o fundo sob o qual se estruturou a moral dádiva-troca.
2. Conclusões de Sociologia Econômica e Economia Política
Trata-se de uma economia muito rica, repleta de elementos religiosos. Clãs, gerações e sexos, devido às múltiplas relações que os contratos ensejam, estão em estado de perpétua efervescência econômica. No fundo, as dádivas não são nem livres nem desinteressadas(servindo de contraprestações para manter alianças e pagamentos de serviços). O Potlatch assume o caráter de puro gasto dispendioso, a destruição pelo prazer de destruir. Riquezas é um meio de prestígio e utilidade, muito diferente do Homo oeconomicus, um produto da Sociedade Ocidental: a busca individual do útil é muito diferente da fria razão capitalista.
3. Conclusão de Sociologia Geral e de Moral
Este estudo é um guia para que próximos estudos possam ser feitos. Estuda fatos sociais totais (ou gerais), ou seja, aqueles que põem em ação a totalidade da Sociedade e das Instituições, constituindo sistemas sociais inteiros (jurídicos, morais e econômicos). Importante ver a generalidade dos fatos e a sua realidade.
Conclusão: As sociedades progrediram na medida que souberam estabilizar as suas relações; retribuir. Estudo em certos casos particulares de um comportamento humano total, a vida social inteira.

Fonte: http://sociologiapublica.blogspot.com/2009/07/marcel-mauss-ensaio-sobre-dadiva.html