Categoria ‘Mitologia’ Antropologia

22
Dec

Bicicletas de Nhanderú

Por: Cátia Simone da Silva

bicicleta
É um documentário que entra na cosmologia, no modo de viver e pensar dos mbya-guarani da Aldeia Tekoa Koénju, localizada nas Missões do Rio Grande do Sul, no Brasil. Precisamente em São Miguel, cidade que faz parte dos Sete Povos das Missões. Onde através do projeto Vídeo nas Aldeias, Ariel Ortega, cineasta e cacique indígena produziu o documentário intitulado “Bicicletas dos Deuses”.

Em 2010 estive visitando esta região com um projeto de extensão de ensino da UFPel/RS,  onde eu, alguns colegas e professores, podemos conhecer dois sítios arqueológicos, as ruínas de São João Batista e a de São Miguel Arcanjo, além da Aldeia Tekoa Koénju. Caso queiram saber mais sobre estas visitas, acessem o meu diário de campo da viagem a São Miguel das Missões.

Na história de vida dos mbyas apresentada no vídeo, com narrativas mitológicas, podemos notar discursos com a necessidade de protegerem-se dos brancos desde de criança, os conflitos com a territorialidade, e conversas de homens com deuses salientando-se a elevada espiritualidade dos mbyas. Onde os  célebres textos de Levi-Strauss, “Mito e Significado”, “Antropologia Estrutural Dois”, “O Cru e o Cozido”,  nos dão os conceitos pertinentes para podermos entender este modo especial de ver o mundo, tão próprio dos ameríndios e outros povos tradicionais.

Além destes traços marcantes das culturas indígenas, onde encontramos as narrativas mitológicas evocando deuses para entender os fenômenos da natureza, como o mito do início do filme onde Tupã, Deus guarani criou tudo que existe no mundo apartir de uma unidade. Também podemos perceber a importância do sentido coletivo, as relações de parentesco, afinidade e reciprocidade explícitas nos comportamentos e também os conflitos de territorialidade ficam evidentes, narrados pelos meninos mbyas.

Para o Karaí, talvez nenhum guarani tenha alcançado a Terra Sem Males, porque é muito difícil um ser humano não ter imperfeições e que “cada pessoa é como uma bicicleta dos deuses”, porque ele diz que os espíritos bons lançam pensamentos e então as palavras são pronunciadas sem que a pessoa perceba.

A cultura material pode ser percebida nas construções das casas, nos artesanatos decorativos e ornamentais entre eles temos as cestas para colocar roupa, confeccionada com a lâmina da taquara, além de colares e pulseiras produzidas com sementes.

Entre outras heranças culturais dos mbyas-guaranis podemos encontrar a confecção de violinos, um dos instrumentos musicais utilizados pelos mbyas, também a arte do entalhe em madeira entre outras, que segundo Arnaldo Bruxel, foram aptidões produzidas nas reduções jesuíticas, então podemos verificar que os saberes tradicionais foram transmitidos por gerações, manifestam-se nos dias atuais, sendo uma herança cultural guarani-missioneira.

Para você ver o filme na íntegra clique no link abaixo:
http://lugardoreal.com/video/bicicletas-de-nhanderu/

Vídeo enviado pelo Prof. Dr. Rogério Réus
Coordenador do NETA/Núcleo de Etnologia Ameríndia/UFPel
Vice-Coordenador do NECO/Núcleo de Estudos sobre Populações Costeiras Tradicionais/FURG

10
Oct

AMAZONAS – Mulheres guerreiras

A mitologia grega fala das amazonas, mulheres que comprimiam ou queimavam o seio direito porque assim lhes ficava mais fácil usar os arcos e disparar flechas contra os inimigos, ou durante caçadas. Diz a lenda que elas mantinham contato passageiro com os homens que habitavam as regiões vizinhas àquelas que dominavam, enviando depois, aos respectivos pais, os filhos varões nascidos desse relacionamento. Algumas se tornaram célebres, como as rainhas Hipólita, ou Antíope, e Pentensiléia, que ajudou os troianos contra os gregos e foi morta por Aquiles.

Sobre esta, o Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch, registra: “Outra aliada foi Pentensiléia, rainha das Amazonas, que chegou à frente de um bando de guerreiras. Todas as autoridades afirmam sua bravura e o terrível efeito do seu grito de guerra. Pentensiléia matou muitos guerreiros gregos, mas afinal foi morta por Aquiles. Quando, porém, o herói se debruçou sobre o cadáver da inimiga caída e contemplou sua beleza e mocidade, lamentou amargamente a vitória”.

Outras amazonas também ficaram famosas, como as da Ásia, comandadas pela rainha Tomitis, que venceram e mataram Ciro, príncipe persa, e as da África, que subjugaram os atlantes, povos que habitavam a Atlântida, mas depois foram exterminadas por Hércules. E durante o século 8, na Boêmia, mulheres guerreiras comandadas por Vastla, construíram fortalezas e durante oito anos semearam o terror naquela região. No século 16, Francisco Orellana (1490-1546), explorador espanhol, comandou uma expedição ao rio Napo, afluente do Amazonas, e ao chegar à confluência deste com o rio Maranhão decidiu continuar descendo seu curso. No decorrer dessa viagem os índios lhe falaram de uma tribo de mulheres guerreiras, ou amazonas, e ele afirmou tê-las encontrado perto da desembocadura do rio Trombetas, vindo daí a designação dada ao nosso grande rio.

O registro desse encontro revela que elas “são muito alvas e altas, com o cabelo muito comprido, entrançado e enrolado na cabeça”… “São muito membrudas e andam nuas em pêlo, tapadas as suas vergonhas, com seus arcos e flechas nas mãos, fazendo tanta guerra como dez índios”… “Quando lhes vinha o desejo, faziam guerra a um chefe vizinho, trazendo prisioneiros que libertavam depois de algum tempo de coabitação. As crianças masculinas eram mortas e enviadas aos pais, e as meninas criadas nas coisas de guerra”… “Vestem finíssima lá de ovelhas do Peru e usam mantas apertadas, dos peitos para baixo, mantendo o busto descoberto”… “Trazem os cabelos soltos até o chão, e na cabeça coroas de ouro da largura de dois dedos”.

Reportando-se a essa passagem histórica, o folclorista, jornalista, escritor e professor Walcyr Monteiro, paraense nascido em 1940, esclarece que foi Francisco de Orellana, realmente, quem, em 1541, contou pela primeira vez que ao chegar ao Mar Dulce, nome pelo qual era conhecido o atual rio Amazonas, ele e seus tripulantes teriam sido atacados por uma tribo de mulheres descritas pelo Frei Gaspar de Carvajal da forma já mencionada. Segundo Walcyr, aquela batalha na foz do rio Nhamundá (atual limite entre o Pará e o Amazonas), foi terrível, pois se de um lado os espanhóis mostravam-se surpresos com a quantidade de guerreiras, coisa que jamais esperavam encontrar, de outro as mulheres combatiam ferozmente, comandando uma legião de índios. Vencidos, os espanhóis foram obrigados a fugir, mas conseguiram capturar um índio que lhes deu diversas informações sobre a tribo de mulheres.

Disse ele que havia cerca de setenta tribos semelhantes na região; que elas vi-viam sem a presença de homens e que dominavam as tribos vizinhas. O índio contou que no tempo de procriar as guerreiras traziam índios à força, das tribos dominadas, e estes, depois de engravidá-las, eram mandados embora. De pronto, os espanhóis as identificaram como sendo as amazonas e passaram a chamar o então mar Dulce de “rio de Las Amazonas”. Outro detalhe interessante é que os índios, por desconhecerem da lenda das amazonas da Capadócia, chamavam as mulheres das tais tribos de Icamiabas, ou “mulheres sem marido”, e diziam que elas presenteavam os homens após a cópula com pequenos artefatos semelhantes a sapos entalhados em algum mineral esverdeado. O presente, chamado muiraquitã, era dado durante um ritual dedicado à Lua, sendo pendurados no pescoço dos visitantes e usados por eles até os próximos encontros sexuais.

A tribo das mulheres sem marido nunca foi encontrada, mas o mesmo não se pode dizer a respeito dos muiraquitãs, porque os pequenos adornos têm sido encontrados com freqüência na região do Baixo Amazonas, justamente onde Francisco de Orellana diz ter travado uma batalha com as lendárias mulheres. É costume dizer-se na região que quem encontra uma pedra de muiraquitã terá sorte no amor e força contra as doenças. Até hoje, muitos artesãos confeccionam peças similares para vendê-las em feiras de artesanatos da região, mas as verdadeiras estão em guardadas em museus ou fazem parte de coleções particulares.

FERNANDO KITZINGER DANNEMANN

Fonte: http://www.fernandodannemann.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=111427

15
Sep

As origens mitológicas

Em torno das origens do mundo e do homem já floresceram as mais variadas e curiosas hipóteses.

Os pigmeus do Gabão, por exemplo, falam da criação do homem como Deus tendo feito bonecos de barro e dado a eles vida, através de fórmulas mágicas. Para os pigmeus de Ituri, no Congo, Deus criou o universo e, no mesmo instante, fez o homem. Os semangues, de Malaca acreditam que dois irmãos poderosos ajudaram o Senhor na obra da criação, construindo montanhas, rios, ilhas, vales e florestas, enquanto Deus ia trabalhando os planetas e o sol. Os andames, do golfo de Bengala, acreditam num ancestral único do homem, o qual coabitou nada menos que com um formigueiro, dele tendo vários filhos. Outros, como os cheienes americanos, os vutis dos Camarões, e os mandis, do Quênia, crêem que o homem saiu de uma costela de Deus, como a Eva bíblica saiu da costela de Adão.

Os egípcios antigos afirmavam que existira sempre o caos e que dele surgiu Amon-Rá, produzindo o mundo à sua vontade caprichosa e dando ordem aos caos. Entre os persas acreditava-se que a criação começou praticamente com uma guerra do bem contra o mal; entre Ormus, o príncipe da luz, e Arimã, embaixador das trevas. A tradição persa afirmava que a guerra durou 9.000 anos. De acordo com o Rig-Veda dos hindus, o Ser único respirava placidamente no nada. Vishvakarma criou  então o mundo, tirando de si a substância necessária. O poema mesopotâmico Enuma Elich é a mais antiga história da criação de que se tem notícia. Marduk, deus babilônico, “tirou um ser feminino das águas do nada e o dividiu em duas partes, como a um búzio, criando o céu e a Terra”.

Entre os apaches jicarilla, que habitavam o Novo México, o Grande Pai fez-se acompanhar, durante todo o tempo da criação, por um cachorro que depois deixou na Terra. Penalizado com a solidão do bichinho, arranjou-lhe um companheiro, o homem. Mas faltou ao homem alguma coisa, e Deus conferiu-lhe a faculdade de rir. Os finlandeses primitivos acreditavam numa pata que pôs seis ovos de ouro e um de ferro, deste último surgindo as partes sólidas da Terra, sendo a gema o Sol e a clara a Lua e as estrelas.

Os esquimós do estreito de Bering, na península dos Tchuktches, junto à Sibéria, afirmam que o mundo foi criado por um casal de corvos. Fizeram primeiro o Alaska, depois a Sibéria, depois o resto.
No século V a. C. o grego Anaximandro disse que “a Terra gira solta no espaço” e isso lhe valeu a fama de louco. Platão, Aristóteles, Demócrito, Pitágoras e Tales de Mileto criaram suas cosmogonias próprias e cogitaram do aparecimento do homem na Terra. No século II da era cristã, Ptolomeu publicou sua obra (que os árabes divulgariam mais tarde sob o título de Almagesto), em que desenvolveu a teoria que dava a Terra como centro do universo. O sistema de Ptolomeu vigorou, com foros de verdade, durante catorze séculos. O italiano Galileu baseou-se em Copérnico e publicou a Dissertação sobre os astros, em 1610, complementando a tese do mestre e apresentando estudos sobre montanhas da Lua, manchas solares, satélites de Júpiter, fases de Vênus e anéis de saturno. Tycho Brahe, dinamarquês, conciliou as teorias de Ptolomeu e Copérnico, fazendo o Sol gravitar em redor da Terra imóvel e os demais planetas em redor do Sol.

Até Dante Alighieri, autor da Divina comédia, criou a sua cosmogonia, numa época em que a multiplicação das hipóteses começava a tornar-se regra. Havia ali o céu cristalino, o céu estelar, o céu dos planetas e o inferno. Kepler sustentou a hipótese das órbitas planetárias elípticas contra a opinião geral de que o Criador só podia conceber círculos, a forma geométrica mais perfeita. As leis de Newton, no século XVIII, não deixaram de ser também hipóteses: lei da inércia, lei da força, lei da reação. Descartes, Leclerq, Swedenborg, Wright apresentaram suas hipóteses cosmológicas e cosmogônicas. Kant explicou o movimento dos astros como resultado do choque de partículas espaciais. Laplace viu a origem do sistema solar numa nebulosa que se esfriou e produziu os planetas.

Bibliografia:
Lisboa, Luiz Carlos. Roberto Pereira de Andrade. Grandes Enigmas da Humanidade. Ed. Círculo do Livro. São Paulo: 1986.

11
May

MITOLOGIAS AMERÍNDIAS – AMAZÔNIA

Introdução ao universo mitológico e metafísico das principais culturas Ameríndias.

Ao contrário das grandes civilizações mesoamericanas e Andinas, os exploradores Ocidentais, não encontraram vestígios de uma civilização, durante as expedições ao vale do rio Amazonas. Em vez disso, descobriram centenas de tribos, vivendo em estados primordiais e descobriram que o mundo destes caçadores – colectores, e dos seus sonhos, se fundiam numa realidade única. Ela era, e é, um mundo povoado de espíritos – espíritos da lua, espírito dos abutres, espírito dos remoinhos, dos raios e dos trovões.

As inúmeras tribos Amazónicas, têm a sua origem em três ramos relacionados: Os Tupi ou Guarani, os Omagua e os Pano; a eles devem  ser acrescentadas as tribos Quíchua, que descendem dos Índios Inca. Na altura em que os cronistas fizeram as primeiras viagens, sabia-se da existência de mais de 700 tribos, cuja subsistência inclui a caça, a pesca e a jardinagem. Os primeiros Ocidentais não encontraram provas de uma linguagem escrita, nem sinais de registos pictóricos que  pudessem esclarecer a mitologia da Amazónia.

Os Índios das florestas tropicais da América do sul, vivem em pequenas sociedades, tendo cada uma a sua base mitológica própria. Nenhum grupo de deuses ou heróis culturais é comum a todos os Ameríndios, desta vasta região. Estamos também a lidar com mundos mitológicos, onde os homens são animais e os animais são homens; com tanta confusão deliberada, de identidades, entre o humano e o animal, é talvez mais relevante considerar os valores simbólicos da Anaconda ou do Jaguar, do que as aventuras dos seus parceiros humanos. A Anaconda, por exemplo, é várias vezes descrita como Mestre das Plantas Cultivadas e o Jaguar como Mestre do Fogo. Apesar dos deuses, heróis culturais e outros seres míticos, variarem de uma sociedade para outra, podemos falar genericamente sobre uma mitologia Sul Americana. O antropologista Francês Lévi – Strauss. Mostrou que os mitos de uma sociedade, não são mais do que a transformação dos mitos de outra sociedade, sendo modificados de maneira ordenada, por variações de entendimento do mundo e diferenças na organização social. À medida que movemos de uma cultura Ameríndia para outra, os mitos de uma são entendíveis em termos da outra, desde que ambos partilhem de uma base de preocupação comum e que vinculem, uma lógica também comum.

A origem da horticultura

Este mito vem do Trio de Suriname e do Brasil. O herói cultural Paraparawa foi pescar à borda de um rio. Ao princípio não apanhou nada, mas ao fim de algum tempo apanhou um pequeno peixe chamado Waraku. Quando o apanhou, ele bateu no chão, atrás de si, e começou a pular. Paraparawa procurou-o mas ele não estava lá. Depois ouviu uma voz atrás de si que dizia: “Sou eu”, e ele ficou espantado, porque o peixe transformou-se numa mulher. A mulher, Waraku, disse: “Eu quero ver a tua aldeia”. Assim eles foram, e nessa altura a aldeia de Paraparawa encontrava-se entre as raízes Waruna. Waraku ficou surpreendida quando viu a aldeia e disse: “Onde está a tua comida? Onde está a tua bebida? Onde é a tua casa?”

“Eu não tenho casa”, disse Paraparawa, “E o meu pão é a seiva mole que se encontra dentro da raiz Waruma”. Waraku disse que já tinha visto o suficiente e ambos retornaram para a água. Ela disse: “Espera um minuto, o meu pai está a chegar, e ele vai trazer comida, bananas, inhame – que tem por tipo o espargo comum – batatas-doces e yuca – yuca é a raiz principal de muitas sociedades Ameríndias Tropicais, da qual se faz o pão e a bebida – Quando o pai de Waraku chegou, Paraparawa viu primeiro a planta da yuca. O seu pai foi-se aproximando, vindo da água, e eles viram as folhas da planta yuca vindo dentro da água, para fora. O pai de Waraku chegou como um crocodilo gigante. À medida que se aproximava, Paraparawa viu os seus olhos vermelhos e ficou tão assustado que fugiu. Mas a mulher manteve-se e ficou com as plantas alimentícias de seu pai. Depois deu tudo a Paraparawa. “Como poderei fixá-las?” perguntou Paraparawa. “Corta um lugar para elas. Alisa um campo para elas”, respondeu Waraku. “Certo”, disse ele, e então plantou-as. Plantou Yuca, bananas e todas as outras coisas no campo. Elas cresceram. Todas cresceram, até não poderem crescer mais. Waraku disse então a Paraparawa como fazer todos os utensílios necessários para fazer o pão, a partir da raiz yuca, porque ele era ignorante e não sabia nada destas coisas, de como cozinhar comida. Waraku fez pão para Paraparawa, mas quando ele experimentou um pouco, vomitou. Não estava acostumado, mesmo assim experimentou de tudo; teve que engolir todos os novos alimentos. Finalmente ele cresceu, acostumado a comer estes alimentos e deixou de comer o interior da haste da Waruma. Foi assim que aconteceu.

De uma maneira geral, os mitos das sociedades da selva Sul Americana, são uma complexa declaração sobre aquilo que existe no mundo: dizem que coisas existem no universo, como vieram a ser e qual a sua natureza. A sua principal preocupação, é definir o ideal ou as relações harmónicas que devem de permanecer entre os vários elementos para a sociedade poder existir. Para isso, elementos caracterizados como perigosos em relação a cada um, devem misturar-se – homem e mulher, humanos e animais, parentescos e famílias – e esta mistura deve seguir as regras próprias, usualmente atribuída a um herói cultural do tempo mítico. Um mito da origem da sociedade, encontrado com frequência entre os Índios da América do Sul, fala de uma criação, normalmente a partir do peixe, de grupos separados de pessoas. Na sua separação, os grupos existiam numa forma associal, e num estado de infertilidade. A vida social, e por consequência a fertilidade, poderiam emergir apenas pela aproximação destes grupos. Eles tornaram-se um só povo, mesmo que de forma perigosa, através de inter. – casamentos. Entre os Shavante do Brasil o laço de parentesco e famílias é cortado novamente após a morte; porque nessa altura o defunto regressa ao seu próprio grupo de origem, que é livre de familiares. Assim, entidades perigosas estão mais uma vez separadas, umas das outras, no mundo do além, e nesta separação vem a não vida: uma declaração eloquente em si, da natureza da própria vida. Os mitos, então, estão ligados ao que quer dizer ser-se humano e vivo, dentro de uma sociedade humana, e são os perigos inerentes à sociedade que são consistentemente colocados à prova. A vida social tornou-se possível através da criação do cultivo, de cozinhar ao lume, de artefactos culturais, a caça, os poderes gerativos do homem e da mulher; mas no despertar destas criações, está não só o conhecimento e a lei, mas a morte, a doença, o canibalismo, a infortuna e o sofrimento. Todos estes elementos em conjunto, criam o mito. História e mito são um e o mesmo para os Ameríndios. Por vezes o mito introduz a um estado de estar pré – mítico, fala numa transformação e ao fazê-lo termina num tempo pós – mítico. Esta transformação de tempo pré – mítico, para pós – mítico, representa o tempo histórico para o Índio, enquanto que o estado de estar pós – mítico, descrito no mito, é percepcionado como a maneira própria e estado inevitável do quotidiano presente: o homem come carne cozinhada, não crua; o Jaguar come comida crua, e não cozinhada.

Um aspecto importante dos mitos é que qualquer dado mítico é sobre a multiplicidade de tópicos. Os mitos acerca da aquisição da agricultura são também sobre a origem da natureza das relações inter–familiares. Os temas estão interligados, sendo cada tema usado para explicitar o próximo. O contador de mitos, usa eventos míticos críticos criativa-mente e a construção de um mito é um processo altamente criativo, aquele da humanidade reflectindo sobre si própria.

rio, água e pedras

De uma perspectiva de categorias Ocidentais, podíamos dizer que é nos mitos que podemos descobrir as filosofias de causalidade dos Ameríndios, a sua classificação dos elementos no universo, os seus conceitos de tempo e espaço, e a sua visão única do destino do homem. Se estes parâmetros ajudam a perceber a visão do mundo Ameríndio, no entanto é questionável. As teorias abstractas da nossa cultura acerca do ordenamento da sociedade e do universo, são tão alienígenas aos habitantes Índios do continente Americano, que podemos usá-las apenas como guia, desprendido, para entender a vida do mundo continental Americano, Pré – Colombiano.

Diniz Conefrey

Fonte:  http://quartodejade.wordpress.com/2011/02/09/mitologias-amerindias