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LÉVI-STRAUSS, O DOS LIVROS, NÃO O DOS JEANS

Saiu nos Estados Unidos uma boa biografia do antropólogo Claude Lévi-Strauss, morto em 2009, em Paris, quando se aproximava dos 101 anos. Seu autor é o jornalista australiano Patrick Wilcken, que já escreveu “O Império à Deriva”, contando a passagem de d. João 6º pelo Brasil. Ele conseguiu uma proeza, um livro legível e movimentado sobre um pensador recluso e seco, pai de uma teoria chamada de “antropologia estruturalista” que escreveu obras intituladas de “As Estruturas Elementares do Parentesco” ou “O Totemismo Hoje”.
Lévi-Strauss começou sua carreira acadêmica no Brasil, acompanhando durante oito meses a vida de índios da Amazônia. Entre 1935 e 1939, conviveu em São Paulo com Mário de Andrade (que manteve uma correspondência sentimental com sua mulher, Dina) e no mato, acompanhando os bororo e os nambikwara. O pesquisador carregava consigo a macaquinha Lucinda. Dessa viagem resultou “Tristes Trópicos”, seu livro mais famoso, publicado em 1955.
O segredo de Wilcken esteve em separar, até onde foi possível, a aventura da vida de Lévi-Strauss da complexidade dos debates filosóficos em que se envolveu. O professor lidou com mitos indígenas e sábios gregos, numa linguagem sempre difícil, às vezes indecifrável para os leigos. Wilcken mostrou um personagem vivo, a quem um garçom de San Francisco perguntou, ao conferir o nome de quem reservara a mesa: “O da calça ou o dos livros?”
Wilcken trabalhou com as anotações pessoais de Lévi-Strauss, suas cartas e o primeiro original de “Tristes Trópicos”. Contou a vida de um intelectual francês que, em 80 anos de reflexões, foi da esquerda socialista parisiense e da boêmia do Greenwich Village para um discreto tradicionalismo. Nesse retrato está a grande virtude do livro.
Aos 82 anos, Lévi-Strauss foi contra a entrada de mulheres na Academia Francesa, mas, durante a Segunda Guerra, teve a vida salva, ou pelo menos a liberdade, porque exilou-se nos Estados Unidos. Colegas seus do Museu do Homem foram fuzilados ou mandados para campos de concentração.
Na segunda metade da biografia Wilcken expõe a construção e as polêmicas que cercaram o estruturalismo. A leitura dessa parte exige um interesse indispensável para quem quer saber da vida do fundador de uma relevante corrente filosófica, hoje bastante esmaecida.
– “Claude Lévi-Strauss – The Poet in the Laboratory” está disponível nas lojas de livros eletrônicos da Amazon e da Apple. Custa 14,99 dólares (R$ 25,50). Rompida a barreira do idioma, o e-book é um grande negócio. Sai pela metade do preço de um volume semelhante, em português.

Elio Gaspari.