28
Aug

No Festival Pano – final

Por: Mariana

Hora das despedidas, pois tudo que é bom (e ruim) conhece um fim, como se diz. No caso do Festival Pano, o fim foi mesmo o encerramento com o alvorecer do dia, após mais uma noitada de ayahuasca, todos em roda, cantando. E aí correndo para pegar um lugar nas canoas que nos conduziram Tejo abaixo. Ah, que saudade. Saudade de um lugar que parecia um não-lugar, um lugar fora dos lugares. Houve momentos em que me perguntava: onde estou mesmo? Rio Branco parecia estar perto, será que estou na Fortaleza do seu Luiz Mendes no festival que lá se realiza anualmente? Não, não, estou na Reserva. Na Reserva? Não, estou na terra dos Kuntanawa, no Festival Pano. Aí assentava de novo e me localizava, para logo, logo me deslocalizar. As referências eram novas, as já conhecidas (o Tejo, rio da borracha, coração da Reserva) não valiam ali.
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E assim também fui encontrando os meus amigos, não mais “Milton”, agora (e sempre, afirmam com orgulho), índios, índios Kuntanawa. E não são poucos, pelo menos quatro gerações estavam ali reunidas. Veja-se a foto abaixo: dona Mariana está sua bisneta Jorrana, filha de sua neta Claudete, que é filha de sua filha Lurdes.

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Vejam agora esta foto, tirada em 1998, na foz do rio Machadinho, onde parte da família Kuntanawa vivia então. Nela estão, da esquerda para a direita, os irmãos Carla, Alisson e Claudete (a mãe de Jorrana), todos filhos de Lurdes.

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Agora, mais de dez anos depois, aí abaixo está o Alisson (de quem, aliás, tenho fotos aos três anos de idade, todo peladinho!), hoje um “homão”, todo lindo, no colo com a filha de um de seus primos. Dos irmãos Alisson, Carla e Claudete, só ele ainda não tem filhos(as).

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Vi também, no Festival, as primas e primos reunidos, e lembrei deles ainda crianças, também juntos, brincando, correndo, brigando, chorando. Na foto abaixo, de 1998, estão (da esq. para dir.) Ebismarque, Alisson, Davi, José, Marlene, Adriano e, sentadas, Macilene e Maciléia.

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Todos, a excecão de Maciléia, estavam lá no Festival participando ativamente. Aí abaixo, por exemplo, estão, Cláudia (irmã do Davi aí acima), filha dos finados Cilene (filha de seu Milton e dona Mariana) e Luis Fontenelle, e Adriana (minha afilhada) e Mariana, ambas filhas do meu compadre Pedro (acima com o rosto todo pintado de urucum) e da comadre Maria. Umas lindas, não?

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Aproveito então o ensejo para fazer uma homenagem a Cilene, que faleceu tão jovem, uma mulher trabalhadora, caprichosa e bem-humorada. Olha uma foto dela, de 1998. E também uma de Cláudia, bem menina.

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Foi especialmente emocionante encontrar Cláudia. Ela tem poucas lembranças da mãe e falamos bastante de Cilene, de como ela era, do seu jeito. Foi muito gratificante trocar isso com a Cláudia. Ao final, depois dela me pintar com urucum, tiramos uma foto juntas.

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Não dava para não encontrar também o Osmildo, amigo que conheci há quase 20 anos (em 1991), na época do cadastramento da Reserva Extrativista, ele integrando a equipe chefiada pelo Txai Terri e integrada também pelo Siã Kaxinawá. Na época em que o Conselho Nacional dos Seringueiros na região do Juruá era chefiado pelo Macedo e o Mauro Almeida era o principal assessor. Tempo bom, que também passou. Pois é, o Osmildo hoje é o coordenador da Organização dos Povos Indígenas do rio Juruá, a Opirj, e estava lá como Kuntanawa que é e como representante da entidade regional. Sempre com sua fala forte e longa. Osmildo, filho de seu Milton e dona Mariana, completou 46 anos durante o Festival e é, no seu povo, creio que o mais antigo estudioso da ayahuasca.

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Os Kuntanawa tem seus jovens líderes, líderes que tem se destacado nas andanças pelo mundo, nas articulações que têm logrado estabelecer com o povo de fora da floresta e do Brasil. O Festival, inclusive, é fruto destas relações interétnicas, nacionais e internacionais, como também de um esforço de reunião do povo Pano, grupo linguístico majoritário no estado do Acre. Entre eles, Haru Xinã se destaca especialmente. O conheci ainda menino, em 1993, na foz do Machadinho, onde sua família então vivia. Ele é filho dos meus compadres (então casados, hoje já não) Pedro e Maria, e hoje seu pai, cujo nome indígena é Univú e foi retratado acima, com o rosto vermelho de urucum, é seu grande esteio e companheiro. Vejam esta foto do Haru, então Fabio, apesar do nome de batismo ser José Flávio: foi tirada em 1993.

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Fiquei agradavelmente surpresa ao assistir a performance de Haru no Festival, sua capacidade de reunião, sua fala que atrai, sua forte presença, sua luz. Ele tem um carisma, e o brilho do outro é uma coisa muito agradável de se ver. Era visível, ao menos para mim, a força que era adicionada nas danças no terreiro quando ele entrava na roda e a liderava (como na foto abaixo). Havia um adensamento, uma intensidade. Do nosso histórico de amizade nesta sua maturidade, que data [este histórico] de alguns poucos anos, cheios de cumplicidade e também de embates (por que não dizer?), estar com ele no Festival, vê-lo lá, foi uma reconciliação no meu coração. Uma compreensão do tempo das coisas, uma percepção melhor de todo movimento que a família Kuntanawa experimenta.

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E por último, mas lembrando que os últimos são os primeiros, estive com seu Milton, o patriarca de todo grupo. Era, para mim, um conforto poder descansar de toda a movimentação e agitação do Festival na casa dele e de dona Mariana (e netos e bisnetos…) ali improvisada. Chegava lá e entrava num outro universo, velho conhecido, familiar e acolhedor, onde me sentia à vontade e encontrava o meu lugar neste tempo de tantas mudanças.

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Foi dali, desta referência familiar e de afeto, que pude apreciar mais ainda o Festival, ver o meu lugar neste tempo da etnicidade, junto com os Kuntanawa em seu movimento e também recostada com calma na casa de paxiúba do meu coração. Agradeço profundamente a seu Milton e dona Mariana por sempre me receberem como uma pessoa da casa.

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